sábado, 27 de agosto de 2016

Solidão

“Sim, onde quer que estejais, estarão convosco. Nem nos cárceres, nem nos hospitais, nem nos lugares de devassidão, nem na solidão, estais separados desses amigos a quem não podeis ver, mas cujo brando influxo vossa alma sente, ao mesmo tempo que lhes ouve os ponderados conselhos”. (Allan Kardec, questão 495 de “O Livro dos Espíritos”)

“Com o Espiritismo, não mais solidão, não mais abandono: o homem, por muito insulado que esteja, tem sempre perto de si amigos com quem pode comunicar-se”. (Allan Kardec, questão 936 de “O Livro dos Espíritos”)

Ou seja, de uma perspectiva espiritual a verdadeira solidão não existe. Falamos, do ponto de vista psicológico, de sentimentos de solidão: aquele que se caracteriza por um estado de quietude interna, onde a criatura entra em contato com sua própria essência e sente-se em paz; ou aqueloutro que se manifesta através da tristeza de sentir-se só.

Segundo Hammed (em “As Dores da Alma” por Francisco do Espírito Santo Neto), o primeiro trata-se de importante momento de reflexão, onde exercitamos o aprendizado que nos levará a abrir um canal receptivo à consciência divina. O segundo relaciona-se aos nossos conflitos internos, como por exemplo “adotarmos padrões existenciais super rígidos, impossíveis de serem atingidos e alimentarmos o orgulho de nos acreditarmos onipotentes, superiores e invulneráveis”. “O esforço metódico para sustentar essa versão idealizada é responsável por grande parte dos nossos problemas de relacionamento conosco e com os outros”. Diz ele: “Para que nossa essência emerja é preciso abandonarmos nossa compulsão de fazermo-nos seres idealizados, nossa expectativa fantasiosa de perfeição e nosso modelo social de felicidade.”

Joanna de Angelis (em “O Homem Integral” por psicografado por Divaldo Franco) traz, sobre o tema, o ensinamento que reproduzimos a seguir:

“Espectro cruel que se origina nas paisagens do medo, a solidão é, na atualidade, um dos mais graves problemas que desafiam a cultura e o homem. A necessidade de relacionamento humano, como meca­nismo de afirmação pessoal, tem gerado vários distúrbios de comportamento, nas pessoas tímidas, nos indivíduos sensí­veis e em todos quantos enfrentam problemas para um inter­câmbio de idéias, uma abertura emocional, uma convivência saudável. Enxameiam, por isso mesmo, na sociedade, os solitários por livre opção e aqueloutros que se consideram marginalizados ou são deixados à distância pelas conveniências dos grupos.”

“A sociedade competitiva dispõe de pouco tempo para a cordialidade desinteressada, para deter-se em labores a bene­fício de outrem. O atropelamento pela oportunidade do triunfo impede que o indivíduo, como unidade essencial do grupo, receba consi­deração e respeito ou conceda ao próximo este apoio que gostaria de fruir. A mídia exalta os triunfadores de agora, fazendo o pane­gírico dos grupos vitoriosos e esquecendo com facilidade os heróis de ontem, ao mesmo tempo que sepulta os valores do idealismo, sob a retumbante cobertura da insensatez e do oportunismo.”

“O homem, no entanto, sem ideal, mumifica-se. O ideal é-lhe de vital importância, como o ar que respira. O sucesso social não exige, necessariamente, os valores intelectomorais, nem o vitalismo das idéias superiores, antes cobra os louros das circunstâncias favoráveis e se apoia na bem urdida promoção de mercado, para vender imagens e ilusões breves, continuamente substituídas, graças à rapidez com que devora as suas estrelas. Quem, portanto, não se vê projetado no caleidoscópio mágico do mundo fantástico, considera-se fracassado e recua para a solidão, em atitude de fuga de uma realidade mentiro­sa, trabalhada em estúdios artificiais.”

“Parece muito importante, no comportamento social, rece­ber e ser recebido, como forma de triunfo, e o medo de não ser lembrado nas rodas bem sucedidas, leva o homem a esta­dos de amarga solidão, de desprezo por si mesmo. O homem faz questão de ser visto, de estar cercado de bulha, de sorrisos embora sem profundidade afetiva, sem o calor sincero das amizades, nessas áreas, sempre superficiais e interesseiras. O medo de ser deixado em plano secundário, de não ter para onde ir, com quem conversar, significaria ser desconsiderado, atirado à solidão. Há uma terrível preocupação para ser visto, fotografado, comentando, vendendo saúde, felicidade, mesmo que fictí­cia. A conquista desse triunfo e a falta dele produzem soli­dão.”

“O irreal, que esconde o caráter legítimo e as lídimas aspi­rações do ser, conduz à psiconeurose de autodestruição. A ausência do aplauso amargura, face ao conceito falso em torno do que se considera, habitualmente como triunfo. Há terrível ânsia para ser-se amado, não para conquistar o amor e amar, porém para ser objeto de prazer, mascarado de afetividade. Dessa forma, no entanto, a pessoa se desama, não se torna amável nem amada realmente.”

“Campeia, assim, o “medo da solidão”, numa demonstra­ção caótica de instabilidade emocional do homem, que pare­ce haver perdido o rumo, o equilíbrio. O silêncio, o isolamento espontâneo são muito saudáveis para o indivíduo, podendo permitir-lhe reflexão, estudo, auto-aprimoramento, revisão de conceitos perante a vida e a paz interior.”

“O sucesso, decantado como forma de felicidade, é, tal­vez, um dos maiores responsáveis pela solidão profunda. Os campeões de bilheteria nos shows, nas rádios, televi­sões e cinemas, os astros invejados, os reis dos esportes, dos negócios cercam-se de fanáticos e apaixonados, sem que se vejam livres da solidão. Suicídios espetaculares, quedas escabrosas nos porões dos vícios e dos tóxicos comprovam quanto eles são tristes e so­litários. Eles sabem que o amor, com que os cercam, traz, apenas, apelos de promoção pessoal dos mesmos que os en­volvem, e receiam os novos competidores que lhes ameaçam os tronos, impondo-lhes terríveis ansiedades e inseguranças, que procuram esconder no álcool, nos estimulantes e nos de­rivativos que os mantêm sorridentes, quando gostariam de chorar, quão inatingidos, quanto se sentem fracos e huma­nos. A neurose da solidão é doença contemporânea, que ame­aça o homem distraído pela conquista dos valores de peque­na monta, porque transitórios.”

“Resolvendo-se por afeiçoar-se aos ideais de engrandeci­mento humano, por contribuir com a hora vazia em favor dos enfermos e idosos, das crianças em abandono e dos ani­mais, sua vida adquiriria cor e utilidade, enriquecendo-se de um companheirismo digno, em cujo interesse alargar-se-ia a esfera dos objetivos que motivam as experiências vivenciais e inoculam coragem para enfrentar-se, aceitando os desafios naturais.”

“O homem solitário, todo aquele que se diz em solidão, exceto nos casos patológicos, é alguém que se receia encon­trar, que evita descobrir-se, conhecer-se, assim ocultando a sua identidade na aparência de infeliz, de incompreendido e abandonado. A velha conceituação de que todo aquele que tem amigos não passa necessidades, constitui uma forma desonesta de estimar, ocultando o utilitarismo sub-reptício, quando o pra­zer da afeição em si mesma deve ser a meta a alcançar-se no interrelacionamento humano, com vista à satisfação de amar.”

“O medo da solidão, portanto, deve ceder lugar, à confian­ça nos próprios valores, mesmo que de pequenos conteúdos, porém significativos para quem os possui. Jesus, o Psicoterapeuta Excelente, ao sugerir o “amor ao próximo como a si mesmo” após o “amor a Deus” como a mais importante conquista do homem, conclama-o a amar-se, a valorizar-se, a conhecer-se de modo a plenificar-se com o que é e tem, multiplicando esses recursos em implementos de vida eterna, em saudável companheirismo, sem a preocu­pação de receber resposta equivalente.”

O homem solidário, jamais se encontra solitário. O egoísta, em contrapartida, nunca está solícito, por isto, sempre atormentado.”

“Possívelmente, o homem que caminha a sós se encontre mais sem solidão, do que outros que, no tumulto, inseguros, estão cercados, mimados, padecendo disputas, todavia sem paz nem fé interior. A fé no futuro, a luta por conseguir a paz íntima — eis os recursos mais valiosos para vencer-se a solidão, saindo do arcabouço egoísta e ambicioso para a realização edificante onde quer que se esteja.”

Hammed (em “As Dores da Alma” por Francisco do Espírito Santo Neto) prossegue: “Lembremo-nos de que a solidão aparece quando negamos nossos sentimentos e ignoramos nossas experiências interiores. Essa forma comportamental tende a fazer-nos ver as coisas do jeito como queremos ver, ou seja, como nos é conveniente, em vez de vê-las como realmente são. Assim é que distorcemos nossa realidade.”
(...)
“São muitos os caminhos de Deus e a solidão pode ser um deles. Jesus Cristo, constantemente, se retirava para a intimidade que o silêncio proporciona, pois entendia que a elevação de alma somente é possível na “vivacidade da solidão”. O Cristo amoroso sabia que, quando houvesse silêncio no coração e no intelecto, se estabeleciam as bases seguras da relação entre a criatura e o Criador, proporcionando a percepção de que somos unos com a vida e unos com todos os seres. A espiritualidade Maior entende que, nos retiros de tranquilidade, criamos uma sustentação interior, que nos permite sintonizar com as leis divinas e com os valores reais da consciência cristã. Ouçamos com os ouvidos internos, pois ninguém pode assimilar bem uma experiência que não provenha de sua própria orientação interior.”

Joanna de Angelis (em “Amor Imbatível Amor” psicografado por Divaldo Franco) por fim coloca: “O medo de amar escamoteia-se e leva à solidão angustiante, que projeta o conflito como sendo de responsabilidade das demais pessoas, do meio social que é considerado agressivo e insano, fatores esses que existem no imo daquele que se recusa inconscientemente a dar-se, ao inefável prazer de libertar as emoções retidas.” Mas...

“(...) O amor relaxa e conforta, sendo felicitador e proporcionando compensação em forma de prazer. É o sentimento mais complexo e mais simples que predomina no ser humano, ainda tímido em relação às suas incontáveis possibilidades, desconhecedor dos seus maravilhosos recursos de relacionamento e bem-estar, de estimulação à vida e a todos os seus mecanismos.”

“O amor liberta quem o oferece, tanto quanto aquele a quem é direcionado, e se isso não sucede, não atingiu o seu grau superior, estando nas fases das trocas afetivas, dos interesses sexuais, dos objetivos sociais, das necessidades psicológicas, dos desejos... Certamente são fases que antecedem o momento culminante, quando enriquece eapazigua todas as ansiedades.”

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Compulsão Alimentar

A alimentação está associada, no psiquismo humano, a todo um conjunto de fatores emocionais que vão além da simples manutenção da vida orgânica. Ao sermos alimentados, nos primeiros anos de nossa existência física, somos também acalentados, em uma permuta de afeto do bebê com aqueles que se caracterizam como seus cuidadores.

Considerando, por sua vez, a compulsão como um ato direcionado por um impulso, que procura descarregar uma ansiedade inconsciente, podemos entender a compulsão alimentar como uma tentativa de solucionar um conflito interno.

Diante de algo que nos incomoda – seja a necessidade de afeto, seja a não aceitação do corpo ou de alguma circunstância vivida ou a não aceitação das próprias dificuldades emocionais por exemplo – através da compulsão alimentar fugimos, procurando algo que nos proporcione prazer momentâneo e postergando o encontro conosco mesmos.

Claro que a partir de uma perspectiva de psicologia espírita, não podemos esquecer o intercâmbio constante com o mundo espiritual, de modo que, afinizados conosco, desencarnados ainda muito ligados ao plano material, desejosos das sensações físicas, estimulam tais comportamentos dos quais pensam se beneficiar, assimilando as sensações dos encarnados.

André Luiz (nos livros “Nosso Lar” e “Missionários da Luz”, psicografados por Chico Xavier) exemplificou bem este fato ao mostrar que muitos desencarnados se compraziam“absorvendo gostosamente as emanações dos pratos fumegantes” de modo que sem a vigilância necessária deixamos à mesa “margem vastíssima à leviandade e à perturbação”. O nobre mentor, contando sobre os primeiros anos que se seguiram à sua desencarnação, diz que fora chamado de suicida no plano espiritual. Amargurado e sem entender, somente depois de certo tempo pode compreender que havia “desperdiçado patrimônios preciosos da experiência física” porque “todo o aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas, aparentemente sem importância”.

Por isso urge nos vigiarmos com relação a todos os excessos a que nos permitimos.

Além das terapias convencionais e espirituais, a autoanálise é sempre de grande auxílio:

1º - procurando identificar os momentos de ansiedade que levam a buscar alimento em dose excessiva ou fora dos horários de alimentação.

2º - tendo identificado, procurando dar-se conta (tornar-se consciente) no próprio momento em que isto ocorre.

3º - tendo percebido no momento, procurando evitar o ato.

E é importante termos muita paciência conosco mesmos, pois toda mudança psíquica se dá gradativamente. Se conseguirmos identificar o conflito de que fugimos, tendo-o por etapa do nosso processo evolutivo (e não como “algo horrível, doentio e proibido”) nos colocamos na posição responsável daquele que luta para superar as próprias dificuldades.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Adolescência

A adolescência, definida como o período que se estende entre a infância e a idade adulta, possui como preâmbulo de seu desenvolvimento a puberdade, marcada pelas alterações corpóreas, seguida de novas necessidades psicossociais. Se do latim “adultus” refere-se àquele que parou de crescer, “adolescer” significa crescer, estar em crescimento.

A Doutrina Espírita, nos brindando com estudos que ampliam nosso conhecimento acerca das relações Espírito-matéria, nos oferece ocasião de aprofundarmos nossa visão sobre as minúcias características desta fase do desenvolvimento humano. O Espírito renascido, agora de posse de sua nova identidade no mundo, enfrenta novos desafios de sublimação de si mesmo.

Do ponto de vista físico, observamos a aceleração do crescimento esquelético, com ampliação de peso e altura, e aumento dos hormônios sexuais, o que influencia o funcionamento do Sistema Nervoso Central, interferindo no humor e no comportamento. Há o desenvolvimento das características sexuais primárias (órgãos reprodutores e genitália externa) e secundárias (desenvolvimento dos seios e alargamento dos quadris, nas mulheres, e crescimento de pelos faciais e mudança na voz, nos homens).[1]

A menstruação (ou menarca) se faz presente, podendo ser sentida como uma afirmação da feminilidade nas meninas, ou acompanhada de receios pela falta de informação. Podem retardar seu aparecimento o estresse, fraco estado nutricional ou exercícios excessivos. Do mesmo modo surge a ejaculação de espermatozoides nos meninos.

Psicologicamente nota-se uma aceleração do desenvolvimento cognitivo com consequente progresso da atividade mental, que prepara o indivíduo para novas relações sociais que o disponibilizarão à fase seguinte da adultez jovem. Segundo as teorias de Jean Piaget[2], trata-se do estágio das operações formais: o pensamento se torna abstrato, conceitual e orientado para o futuro evidenciando notável criatividade (artes, música, poesia, esportes, ideias).

É comum a presença da masturbação, antecedendo as primeiras experiências de contato sexual com outro indivíduo, e também se fazem corriqueiras as experiências homossexuais transitórias. Rituais de iniciação são observados em diversas épocas, e na nossa cultura atual podemos verificar desde a primeira comunhão dos católicos, os bar e bat-mitzvah dos judeus e os trotes aos calouros nas universidades, até os piercings e tatuagens que identificam os jovens como membros de seus grupos de pares.

A intensidade das transformações, acrescida pelo luto pela identidade infantil e a inoperância dos velhos padrões de funcionamento, tornam o indivíduo estranho a si mesmo e ativam um processo arquetípico que o leva a revisar suas posições existenciais. As relações familiares são marcadas por ambivalência: a necessidade de se tornar independente e o desejo de se manter recebendo proteção, apoio e carinho. É comum a presença de instabilidade de humor, sensibilidade e questionamento de valores existentes, espelhando necessidades de renovação e mudança temperadas pelas próprias vivências internas.[3]

A adolescência é, ainda, a fase em que está completa a reencarnação[4]. Da infância, onde se apresentava uma não-consciência de seus atos acrescida da inocência, agora o espírito apresenta suas verdadeiras tendências, de forma que cabe a si a responsabilidade sobre o aprendizado absorvido na condição de criança.

Tendo vivido a oportunidade de se adaptar às novas condições de vida, à família, aos costumes, agora a tarefa é preparar-se para cometimentos mais profundos relacionados à experiência com o trabalho e a vida em sociedade. Assim, as crises de identidade também são potencializadas pelo choque entre a individualidade espiritual e a personalidade atual.

Segundo Joanna de Angelis[5], o adolescente, tratando-se de espírito viajor de longas jornadas, traz débitos dos quais muitas vezes não se desincumbiu conforme o esperado, propondo-se agora ao ressarcimento. Neste sentido se faz mister a educação. A libertação dos vícios anteriores e a aquisição de novos valores que os contrabalancem, superando-os, é a tarefa espiritual desta etapa. Amor, conhecimento e disciplina: eis as ferramentas que lhes insculpirão no ser as lições que os acompanharão para sempre.
           
Sexualidade

Manifestação da necessidade de intercâmbio afetivo entre os seres, a sexualidade trata-se de fenômeno mais complexo do que a simples continuação da espécie. Sincronia no vegetal, instinto no animal, embrião de novas conquistas evolutivas do futuro no hominal, na adolescência a sexualidade aflora mais intensamente manifestando possíveis perturbações do passado e ansiando por sua expressão em forma superior quando a serviço do amor.

A libido, sob seus impulsos (do amor), como força criadora, não produz tormento, não exige satisfação imediata, irradiando-se, também, como vibração envolvente, imaterial, profundamente psíquica e emocional. Quando o sexo se impõe sem o amor, a sua passagem é rápida, frustrante, insaciável...
(Joanna de Angelis)[6]

André Luiz[7] nos informa quanto à importância da epífise, cuja função não se restringe ao controle dos instintos sexuais durante a infância para depois se tornar órgão morto. A tão estudada glândula pineal segrega hormônios psíquicos ou “unidades-força” que controlam os sistemas sexual e endócrino, acordando, no período em questão, as forças criadoras da psique. Há, assim, uma recapitulação da sexualidade na adolescência, de modo que as paixões vividas noutras existências reaparecem como fortes impulsos.

No processo de educação do ser que se reinicia na experiência física é fundamental abarcar o sentido profundo do sexo, não se limitando ao conhecimento do corpo físico e suas funções. Conflitos, medos, anseios, harmonia imprimem matrizes emocionais, limitações orgânicas, exaltação ou deficiências na libido e possíveis preferências perturbadoras que necessitam de orientação.

A função educadora é dos pais. Transferi-la a terceiros, ou mesmo à escola, é correr o risco do assunto ser abordado com irresponsabilidade. Fundamental se torna que as próprias figuras parentais busquem conhecimento, se beneficiem de terapêutica especializada, para que, seguros e sem repetir modelos castradores do passado, ou libertinos, tão em voga em nossa sociedade atual, possam se constituir em exemplos dignos de serem seguidos. Educar com alegria e naturalidade, sem excesso ou ausência de pudor e evitando informações para as quais não haja interesse do educando, é rota segura para desenvolvimento de harmonia na área da sexualidade.

Diante da gravidez na adolescência, se faz imprescindível ao jovem assumir a responsabilidade com relação ao ser que renasce, pois se há maturidade para o ato sexual, há – ou deverá construir-se – a mesma para a maternidade e paternidade[8], através da consciência do dever. O aborto, que constitui grave trauma psicológico de consequências imprevisíveis, deve ser evitado, a não ser diante de risco de vida para a mãe. Ele não apaga erros cometidos por imprevidência, apenas dá lugar ao infanticídio[9], gerando novas necessidades de reparação.

Assim, para compreender a sexualidade de modo mais amplo, não podemos desconsiderar a anterioridade da alma. Suas expressões variadas, atestando a bissexualidade psicológica do ser, com ou sem distúrbios, atestam a longa caminhada do Espírito e não podem ser julgadas de modo sensacionalista ou preconceituoso.

Segundo a nobre mentora citada, qualquer força deixada em desequilíbrio, danifica e destroi. E a sexualidade tem conduzido a História da humanidade, de modo que hecatombes morais, sociais e espirituais, além de desastres bélicos, têm relação com líderes doentios que não conseguiram dominar essa energia que os alucinava.

Examine-se qualquer déspota, e nele encontrarão registros de distúrbios na área do comportamento sexual. (Joanna de Angelis)[10]

 O sexo existe a serviço da vida, não a vida a serviço do sexo. Sofrendo a influência dos automatismos criados pela permanência nos instintos inferiores no decorrer da escalada evolutiva, cabe à razão a canalização dos últimos em prol da iluminação do ser. E ao Amor, cabe sempre mostrar a diretriz para cometimentos felizes.

Vícios

Sensações já consolidadas, ligadas ao prazer ilusório do entorpecimento, muitas vezes como fuga dos conflitos emocionais subjacentes, podem reacender-se em momentos cruciais como a adolescência.  Isto porque é característica do período a vivência de inúmeros conflitos, e os viciados renitentes são vítimas do mesmo hábito que mantiveram em existência anterior.

Segundo André Luiz[11] as drogas psicoativas, ao adentrarem o organismo físico, atingem os neurônios e também seus correlatos perispirituais. Considerando que o perispírito atua como um filtro dosador na adaptação das energias espirituais ao corpo físico e vice versa, pode-se compreender a possibilidade de um bloqueio de energia que gera desequilíbrio espiritual – não somente físico. Acrescentamos a isto a vinculação com entidades desencarnadas em desalinho que vêm somar desajustes emocionais e enfermidades várias e não é difícil concluirmos que o vício, de qualquer natureza, conduz à infelicidade.[12]

Fuga da realidade, conflitos sexuais ou emocionais em geral (timidez, complexo de inferioridade, transtornos masoquistas, ciúmes), maus exemplos de cuidadores incapazes de suportar as próprias frustrações, agressões domésticas, falta de carinho, pressões sociais de amigos perturbados ou traficantes insensíveis às necessidades do outro são fatores relacionados ao uso de drogas na adolescência. As drogas são muitas vezes buscadas inconscientemente como “tratamento”: para trazer coragem diante de determinada situação; calma, diante de outras.

No entanto, o que se consegue é uma agravação dos conflitos psicológicos subjacentes, senão o desencadeamento de doença mental. Assim, os pais devem ter discernimento para perceberem quando o filho precisa de ajuda especializada. E o jovem, para poder buscar essa superação com a ajuda de profissionais capacitados e não de traficantes.

A curiosidade pode ser acrescentada como outro elemento, entendida por Joanna de Angelis[13], neste caso, como mais uma manifestação de desequilíbrio: como se para conhecer a gravidade de uma doença fosse necessário se infectar. A terapêutica preventiva é sempre a melhor indicação. Não esqueçamos, neste aspecto, a importância das relações familiares, da intimidade, para que o adolescente possa expressar suas dúvidas e buscar auxílio se necessário.

Se os pais descobrirem que o filho é dependente químico, não devem fazer disto uma tragédia, acusando-o, desesperando-se. Devem, sim, tratando o assunto com muita seriedade, levar o jovem ao médico psiquiatra para iniciar o tratamento necessário, ao qual pode ser acrescentada a terapêutica espírita (diálogo amoroso, passes, água fluidificada).
           
Relações Familiares

O lar é escola de dignificação humana e a família jamais dará lugar ao egoísmo, de modo que não irá desaparecer da sociedade terrestre.[14] Ao contrário do que parece nos tempos atuais, a família não está em decadência. Está, como os velhos padrões de uma forma geral, em processo de transformação.

O próprio instinto gregário conduz o ser humano na busca por viver em grupo, e a convivência entre filhos e pais é recurso psicoterapêutico valioso. Neste espaço, trabalha-se e supera-se as exigências do ego, dando lugar aos interesses gerais e superando reminiscências anteriores.

Da antiga família marcada pela relação ditatorial entre pais e filhos, onde a mulher ocupava posição de objeto e a responsabilidade sobre a prole não era dividida entre o casal, passamos por um período de contestação que abre espaço para uma ética mais próxima da moral, onde vêm alicerçando-se os valores do amor e da solidariedade[15].

Ser filho é oportunidade de aprender a ser pai/mãe. Não sabendo exercer obediência e submissão, dificilmente saberá orientar. Cabe aos pais graves responsabilidades com relação aos filhos e a estes, da mesma forma, com os pais, devendo aos últimos afeto e cuidados, independente de o merecerem ou não.

Devido às várias transformações pelas quais passa o adolescente, não podemos deixar de considerar possíveis manifestações de agressividade que, em propondo uma mudança de funcionamento no grupo familiar como um todo, favorece o aparecimento de conflitos familiares. O adolescente passa a agir em tentativa de controlar onipotentemente fora o que sente que não dá conta internamente. A possível rigidez do adulto em apresentar “proibições” variadas, quase sempre irracionais, responde pela curiosidade atribuída àquilo que, por ser proibido, se infunde de características mágicas e sedutoras. Por outro lado, a permissividade com relação a pequenos delitos insculpe hábitos perniciosos que tendem a permanecer na vida adulta. Cabe a orientação aos pais:

Se ele agride, não revides com violência. Demonstra a utilidade das tuas forças morais de tal modo, que no conflito em que ele se debate, nasça-lhe o desejo de possuir a paz que tu desfrutas. (Marcelo Ribeiro)[16]

Os feixes nervosos, carregados de energia e vitalidade, dão ao jovem a impressão de poder. A impulsividade pode fazer arrastar-se ao prazer imediato, mas também pode ser disciplinada através das tarefas dignificantes, evitando-se o ócio e o relaxamento demorado.[17]

O diálogo franco é fundamental, dissolvendo de início os desentendimentos, antes que tomem proporções significativas. Não há assunto que não possa ser abordado com amor, no lar, sem expor as chagas alheias. Quando essa amizade não for encontrada em casa, o adolescente buscará fora, muitas vezes em ambiente pouco saudável.

            Recomenda-se, por fim, a procura de tratamento psicológico nos casos em que se observe:

- isolamento excessivo (família, amigos, escola);
- alterações constantes e extremas no humor (entre euforia e depressão);
- agressividade excessiva;
- dificuldades escolares sem motivos aparentes;
- dificuldades sexuais (com relação a si mesmo ou na relação com outra pessoa).

Final do Período

O final da adolescência tem como característica crucial a aquisição das prerrogativas do adulto: independência, contribuição criativa para a sociedade, desenvolvimento de um senso de intimidade que pode conduzir o jovem a constituir nova família.  Entretanto, o amadurecimento psicológico não necessariamente acompanha as mudanças fisiológicas, de modo que podemos observar diferenças entre crescimento intelectual e emocional.

Os atavismos sociais e culturais relacionados à forma como se lida com a personalidade em formação da criança e do adolescente, que podem se exprimir tais como rigidez ou negligência, imprimem em seu psiquismo insegurança, temores, desorganização[18]. Estes tenderão a se manifestar na idade adulta através de comportamentos agressivos ou dependentes, dentre outros, que escondem conflitos interiores diversos na busca por sentir-se amado.

Para conquistar o amadurecimento almejado, adentrando-se nas etapas seguintes da trajetória terrena, é fundamental enfrentar com amor as dificuldades não superadas da infância, e utilizando-se de informações novas, ir diluindo-lhe as fixações. [19] Reconhecer-se como o ser eterno que é e não olvidar jamais as máximas “fazer a outrem o que gostaria para si mesmo” como trilha segura ao conhecimento de si e do mundo, que permitirá a definição dos rumos a serem traçados para execução na fase seguinte.

Referências


[1] Kaplan, H., Sadock, B. e Grebb, J. Compêndio de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. p. 61-66.
[2] Rizzi, C. B. e Costa, A. O Período de Desenvolvimento das Operações Formais na Perspectiva Piagetiana: aspectos mentais, sociais e estrutura. In EDUCERE - Revista da Educação, p. 29-42, vol. 4, n.1, jan./jun., 2004. (Acesso em nov. de 2011) Disponível emhttp://revistas.unipar.br/educere/article/viewFile/178/152.
[3] Bloise, Paulo. O Arquétipo do Heroi: Dependência e Desenvolvimento. In Panorama Atual de Drogas e Dependências. Silveira, D. e Moreira, F. org. São Paulo: Atheneu, 2006. (Acesso em novembro de 2011). Disponível em:http://www.nucleoanthropos.com
[4] Franco, Divaldo. Adolescência e Vida (pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador: LEAL, 2011. p. 11.
[5] Idem 4. p. 09.
[6] Franco, Divaldo. Amor Imbatível Amor (pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador: LEAL, 1998. p. 18.
[7] Xavier, Francisco Cândido. Missionários da Luz (pelo Espírito André Luiz). 40ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. p. 21 a 29.
[8] Franco, Divaldo. Laços de Família in Seminário Formação de Equipes para Campanha “Viver em Família” (1994 – São Paulo). Carvalho, A. (org.). 8ª ed. São Paulo: USE, 2002. p. 46.
[9] Franco, Divaldo. Constelação Familiar (pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador: LEAL, 2009. p. 29.
[10] Idem 4. p.21
[11] Reformador. As Drogas e Suas Implicações Espirituais.[internet] Março de 1998. Aceso em novembro de 2011.
[12] Franco, Divaldo. Conflitos Existenciais (pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador: LEAL, 2005. p. 135-143.
[13] Idem 4. p.142
[14] Idem 9. p. 12.
[15] Idem 8. p. 30.
[16] Franco, Divaldo. Terapêutica de Emergência (pelo Espírito Marcelo Ribeiro). 5ª ed. Salvador: LEAL, 2002. p. 209
[17] Idem 17. p. 207.
[18] Franco, Divaldo. Autodescobrimento: uma busca interior(pelo Espírito Joanna de Ângelis). Salvador: LEAL, 1995. p. 149-153.
[19] Idem 18.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Esquizofrenia

“O Ser real é constituído de corpo, mente e espírito. Dessa forma, uma abordagem psicológica para ser verdadeiramente eficaz deve ter uma visão holística do ser, tratando de seu corpo (físico e periespirítico), de sua mente (consciente, inconsciente e subconsciente) e de seu espírito imortal que traz consigo uma bagagem de experiências anteriores à presente existência e está caminhando para a perfeição Divina.” Joanna de Ângelis


Esquizofrenia

Texto de Joanna de Angelis, no livro "Triunfo Pessoal", psicografado por Divaldo Franco:




Nos transtornos psicóticos profundos, a esquizofrenia destaca-se aterrorizante, face à alienação que impõe ao paciente, afastando-o o convívio social e conduzindo-o à vivência da própria incúria, sem a capacidade de discernimento que se encontra embotada. 


Denominada por Freud como "neurose narcisista", indicada por Kraepelin, que estabeleceu como sintoma frequente a "indiferença ou embotamento afetivo", coube a Bleuler assinalar que o paciente é vítima de uma "desagregação do pensamento", que produz uma certa rigidez com extrema "dificuldade de exteriorização dos sentimentos", não sendo, portanto, imune à afetividade. Clinicamente apresenta-se sob três formas, consideradas clássicas: hebefrenia, catatonia eparanóia. Posteriormente foi acrescentada uma outra, que ficou denominada como esquizofrenia simples.

Sem dúvida, fatores hereditários preponderantes impõem o desvio psicótico profundo, graças às impressões vigorosas registradas nos genes desde os primórdios da concepção. Essa terrível afecção mental responde pela falta da associação de idéias, pelo desleixo e abandono do Si em transtorno grave de conduta.

Enfermidades infectocontagiosas e suas sequelas podem, também, desencadear o processo esquizofrênico, em razão dos prejuízos que impõem aos neurônios cerebrais e às suas sinapses, que se desconectam, tornando-se incapazes de enviar as mensagens corretamente de um ao outro, nessa cadeia complexa de informações que transitam através de suas delicadas conexões. Fenômenos orgânicos que promovem grande tensão, como aqueles considerados críticos, tais a puberdade, o catamênio, a menopausa e a andropausa, são arrolados como responsáveis também pelas manifestações lentas e contínuas do transtorno esquizofrênico.

Por outro lado, traumatismos cranianos atingindo o cérebro produzem efeitos equivalentes, perturbando o raciocínio do paciente e afastando-o do convívio da sociedade. Outrossim, fatores exógenos que dizem respeito aos eventos da vida, também respondem pelo transtorno cruel, especialmente nos indivíduos de compleição moral frágil ou marcados por graves distúrbios familiares, sociais, de trabalho, de relacionamento afetivo, que os predispõem às fugas espetaculares para o quase autismo.

Não obstante, deve-se incluir na psicogênese do transtorno esquizofrênico, a consciência de culpa das ações vivenciadas em existências anteriores, quando a delinqüência assinalou o desenvolvimento do Self, hedonista e explorador, que somente utilizou dos amigos e conhecidos para os explorar, traindo-lhes a confiança ou covardemente destruindo-lhes o corpo em horrorosos crimes que não foram justiçados, porque passaram desconhecidos ou as circunstâncias legais não os alcançaram. Não havendo sido liberados pela reparação através dos cometimentos impostos pela Lei vigilante, insculpiram nas delicadas tecelagens vibratórias do corpo perispiritual a responsabilidade infeliz, que ora ressurge como cobrança, necessidade de reparação, impositivo de reequilíbrio, de recomposição social, familial, humana.

Eis que nessa, como noutras ocorrências psicopatológicas, a interferência de seres desencarnados ou de outra dimensão, se assim for mais acessível ao entendimento, impondo sua vontade dominadora sobre aquele que o infelicitou no curso da existência anterior, produz a distonia equivalente àquelas que procedem das psicogêneses internas e externas.

Essa imposiçãso psíquica frequente e insidiosa afeta os neurotransmissores, facultando que moléculas - neuropeptídeos - responsáveis pelo equilíbrio das comunicações, as desconectem, produzindo a alienação. A mente, que não é física, emite ondas especiais que são captadas por outras equivalentes, que sincronizem com as emissões que lhe são direcionadas. Há, em todo o Universo, intercâmbio de mentes, de pensamentos, de vibrações, de campos de energia...

No que diz respeito às afinidades psíquicas, a sintonia vibratória permite que sejam decodificadas mensagens mentais por outros cérebros que as captam, conforme os admiráveis fenômenos parapsicológicos da telepatia, da clarividência, da precognição, da retrocognição, cujas experiências em laboratório tornaram-nos cientificamente comprovados, reais.

É natural, portanto, que não havendo a destruição do Selfquando ocorre a morte ou desencarnação do ser humano, a mente prossiga enviando suas mensagens de acordo com as construções emocionais de amor ou de ira, de felicidade ou de desdita, que se fazem captadas por estações mentais ou campos psi, dando curso às inspirações, às percepções enobrecidas ou perturbadoras, facultando o surgimento das nefastas obsessões de efeitos calamitosos.

É muito mais vasto o campo dessas intercorrências espirituais do que se pode imaginar, sucedendo tão amiude, que seria de estranhar-se não as encontrar nos transtornos neuróticos ou psicóticos de qualquer natureza.

Self, dessa maneira, desenvolve-se mediante as experiências que o acercam do Arquétipo Primacial, no qual haure vitalidade e força, transferindo todas as aquisições nobres ou infelizes para futuros cometimentos, assim ampliando os primeiros e recuperando-se dos segundos, armazenando todas as experiências que o conduzirão àindividuação plena, ao numinoso ou sintonia com Deus.

Mergulhando, a princípio, no deus interno, desperta o potencial de sabedoria e de amor que nele jazem, a fim de poder crescer em aplitude no rumo do Deus Criador do Universo...

A saúde mental somente é possível quando o Self, estruturado em valores éticos nobres, compreende a finalidade precípua da existência humana, direcionando os seus sentimentos e conhecimentos em favor da ordem, do progresso, do bem-estar de toda a sociedade.

A liberação do ego arbitrário, desvestido dos implementos da aparência que se exterioriza pela persona, permite a integração do ser na vida em caráter de plenitude.

Todas as terapias acadêmicas procedem, valiosas e oportunas, considerando-se a imensa variedade de fatores preponderantes e predisponentes, para o atendimento da esquizofrenia, não sendo também de desconsiderar-se a fluidoterapia, o esclarecimento do Agente perturbador e o consequente labor de sociabilização do paciente através de grupos de apoio, de atividades espirituais em núcleos próprios onde encontrará compreensão, fraternidade e respeito humano, que o impulsionarão ao encontro com o Si profundo em clima de paz.