domingo, 7 de setembro de 2014

Da Teoria à Prática


Autor: Orson Peter Carrara

No comentário à resposta dos Espíritos Codificadores, na questão 685 – entre outras – de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec refere-se à educação moral, situando-a como a arte de formar os caracteres. Sim, caracteres morais, capazes de alterar todo o panorama da vida humana no planeta. Justamente pela modificação dos hábitos, alterados pela correta condução da educação, desde a infância.
O assunto é extenso, objeto de cuidados de várias análises e abordagens, face à inesgotável contribuição espírita ao importante tema.
Dentre os inúmeros articulistas, escritores, palestrantes e mesmo profissionais da educação – atuando dentro e fora do movimento espírita –, destaco aos leitores a expressiva contribuição do educador e amigo Marcus Alberto de Mário, do Rio de Janeiro.
Com vários livros publicados, a maioria deles voltados para a educação, palestrante, consultor empresarial, fundador e idealizador do IBEM – Instituto Brasileiro de Educação Moral (que desenvolve projeto pedagógico disponível no site www.educacaomoral.hpg.ig.com.br) e membro do GEPE – Grupo de Estudo e Pesquisa Espírita (para estudos na área de humanização e pesquisa mediúnica), Marcus é um autêntico pensador em educação. Seu trabalho é admirável justamente pela valorização oferecida ao tema. Livros como Pedagogia da Sensibilidade, Escola do Sentimento e É preciso amar, entre outros, falam por si só do empenho do autor.
E como Marcus tem ministrado seminários e cursos dentro e fora do meio espírita, para professores e escolas, achei interessante apresentar-lhe três perguntas para construção do presente artigo. Chamo a atenção dos leitores para as respostas: 

1. Explique a pedagogia do sentimento.
Na verdade é a Pedagogia da Sensibilidade. Escrevi um livro para explicá-la, mas em poucas palavras é a aplicação prática da educação moral através do estudo e vivência das virtudes, levando em conta as situações práticas da vida, fazendo o educando pensar e desenvolvendo nele o potencial intelectual e afetivo. Através do estudo e da aplicação de atividades diversas, como técnicas de sensibilização, jogos, práticas, etc., a Pedagogia da
Sensibilidade trabalha a educação do ser com amor, com exemplo e com experiência prática, sensibilizando-o, despertando-o e conscientizando-o de si mesmo, do outro e de sua origem e destinação divinas.

2. Como são os seminários apresentados para professores e escolas?
São muito práticos, dinâmicos, mesclando sempre a teoria com a prática. Normalmente possuem duração de 4 horas, mas podem se estender por 8 horas. Os professores interagem o tempo todo, com muito diálogo, e realizam diversas atividades propostas pela Pedagogia da Sensibilidade. Somos provocadores e semeadores, pois o educando, para sua educação, depende do educador, por isso no IBEM damos prioridade à capacitação do educador. Ressalto a gratuidade dos seminários, já que fazemos o trabalho por amor e com amor.

3. Comente o foco central de tua atuação na área da educação.
Minha atuação é a do pesquisador em educação moral. Preocupo-me em traduzir a teoria para a prática da sala de aula, da escola e da família. Dizem que sou dotado de um senso prático muito grande, é uma característica que me leva a estar constantemente desenvolvendo cursos, seminários e oficinas de vivências. Ao mesmo tempo em que dedico horas e horas à pesquisa e ao estudo, vivo viajando atendendo professores e evangelizadores, além de
realizar todo um trabalho como escritor, pois gosto muito de escrever, passando para o papel e para a internet as idéias e ideais. 

Face à importância da contribuição para o movimento espírita, gostaria de sugerir aos dirigentes, evangelizadores e educadores espíritas ampla visita no site acima referido e realização de eventos na área da educação (dentro e fora do movimento espírita, é bom que se destaque) com a presença do próprio autor. Fizemos, com muito êxito, experiências com palestras e seminários em Dois Córregos, Matão e São José do Rio Preto, reunindo profissionais da área de educação, não espíritas, em eventos promovidos através da Secretaria de Educação dos municípios envolvidos. Experiência vitoriosa e altamente benéfica para os objetivos da proposta espírita, embora sem vinculação direta ou ostensiva com a nomenclatura espírita.
Contatos com o autor podem ser feitos através do site acima citado, pelo e-mail marcusdemario@yahoo.com.br ou pelos telefones 0 xx 21 3087-3526 e 0 xx 21 2262-6721.

sábado, 6 de setembro de 2014

Misticismo nos Centros


Autor: Orson Carrara

É clara a Doutrina Espírita em seus monumentais ensinamentos.

Nem sempre, porém, as Casas que a representam ou utilizam seu bom nome seguem corretamente suas orientações, enxertando-se de práticas estranhas, exóticas e totalmente distantes da prática espírita.

A prática espírita visa o bem da criatura humana, pelo esclarecimento e socorro que pode proporcionar e dispensa qualquer manifestação de ordem exterior ou material. Isto significa que o material utilizado pela prática espírita situa-se exclusivamente na mente e no coração. Mente para raciocinar, coração para sentir...

Vemos com total estranheza grupos que cobram pelos serviços que prestam. Centros que tornam o passe obrigatório ou transformam a mediunidade em consultório dos espíritos. São procedimentos distantes da Doutrina Espírita. São grupos mediúnicos porém, não espíritas. Vez por outra se defronta com locais onde a música e a prece se tornam rituais (ao invés de utiliza-las como recurso de aproximação com Deus). É o caso da prece demasiadamente longa ou repetitiva sem emoção conduzida como mera obrigação onde os presentes ao invés de senti-Ia pela emoção, repetem simplesmente pela boca. É a música quando se torna indispensável, misturando-se à atividade propriamente dita. É o apagar de luzes como ritual, é também o exigir-se um auto-passe para entrar no Centro (será que todo sabem o que é um auto-passe? Como faze-lo? etc. ). São grupos de estudos que vivem dependentes de orientação de espíritos desencarnados, a eles obedecendo cegamente, sem o discernimento analisar tais propostas e recomendações. É também o uso de imagens e roupas especiais no Centro. O benzimento de roupas e fotos, a valorização demasiada de passes e reuniões mediúnicas em detrimento do estudo...

É também a consulta aos espíritos para qualquer assunto, a realização de casamentos e batizados no Centro, etc. Como ficamos com Kardec?

No livro CIVILIZAÇAO DO ESPÍRITO - Megatendências do século XXI - volume II (Lumen Editorial Ltda. -rua Conselheiro Ramalho, 946 - São Paulo-SP CEP 01325-000 - Fone: (01 1) 283-24 1 8 ), o autor DULCIDIO DIBO afirma que "(...) Admitimos que todo espírita crítico, consciente e não alienado de suas responsabilidades está no dever intransferível de lutar contra essas ondas de poluições mentais. Na verdade, ninguém tem o direito de cruzar os braços em nome de uma falsa tolerância com assuntos doutrinários, o que os levará à cumplicidade. Não há lugar para o Misticismo Popular nem para o Cientificismo vulgar na Doutrina Espírita.

Ora, sejamos coerentes com o que já sabemos. Dispensemos, sem medo de errar, práticas que nada têm a ver com a Doutrina. Há muito o que fazer, o que estudar. Como se envolver com questões distantes da Doutrina, quando ela nos pede o trabalho de ir ao encontro daquele que busca esclarecimento, que muito mais que solução de suas dificuldades pede apoio e orientação para saber corno defender-se...

O grande problema do uso dessas práticas que se introduzem dentro do Centro, muitas vezes sem se perceber, é que elas fogem dos objetivos primeiros do Centro Espírita e pior, criam dependências justamente em quem ali está para tornar-se independente. Não estamos no Centro para criar dependências de pessoas ou situações. Estamos no Centro para aprendermos a voar com as próprias asas do conhecimento e do amor, fazendo também isto pelo semelhante.

Como receita, que tal estudarmos Kardec, sem ficarmos presos a condicionamentos de fora?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Por que ir à casa Espírita? Por João Batista Armani

A experiência nos demonstra que algumas pessoas comparecem ao Centro Espírita a procura de solução para tormentosos problemas pessoais, destacando-se, isoladamente ou em conjunto:

  • Enfermidades renitentes – Apesar de terem procurado inúmeros especialistas, realizados variados exames (onde nada é encontrado), tomado inúmeros medicamentos, mas os sintomas permanecem, são as “doenças fantasmas”.
  • Desentendimentos no lar – Com discussões constantes entre cônjuges, pais e filhos, irmãos, parente em geral; e por mais que se esforcem, a harmonia aí não se instala.
  • Tensão nervosa – Onde a pessoa já levanta nervosa e não sabe porque, irritação sem causa aparente.
  • Depressão – Com profundos sentimentos de baixa estima, desamor.
  • Dificuldades financeiras – Onde apesar de terem seus ganhos, o dinheiro parece sumir de suas mãos. Quando tudo parece que vai melhorar, aparecem gastos inesperados como: o carro que estraga, uma doença, um prejuízo nos negócios.
  • Frustrações profissionais – Desagrado com o trabalho que realizam; o local onde trabalham; os colegas a sua volta, ou se não tem trabalho também não conseguem emprego, embora as vagas existam, não são admitidos.
  • Insistentes idéias infelizes – Sentimentos de largar tudo para traz e ir embora sem rumo; abandonar a família; insatisfação geral com a vida; e em casos mais graves até idéias de suicídio.
  • Desenganos sentimentais – Constantes idéias de separações; e se está solitária incansável busca do parceiro ideal, que nunca aparece.
  • Etc...
Solução esta que já buscaram em outras crenças e até mesmo em consultórios médicos, sem contudo lograrem o êxito esperado, na sua ótica de visão.
Vêem então à Casa Espírita. Isto significa que o Centro Espírita é para muitos um hospital mágico, onde mentores espirituais podem realizar os mais variados prodígios em favor dos consulentes.
Semelhante situação é no mínimo extravagante, porquanto não se inspira nos postulados doutrinários. Não há nada, em Espiritismo, que sugira a idéia de que o intercâmbio com o plano espiritual é uma panacéia (remédio) infalível para os males humanos.
Apesar desses irmãos infelizes desconhecerem o objetivo maior da Casa Espírita, esta os recebe de portas abertas e coloca-lhes a seus serviços todos os recursos de que dispõe, amparando, consolando e instruindo. (Lembrando que nas reuniões públicas não se fecha a porta em momento algum. Mesmo que alguém chegue atrasado, venha à Casa Espírita, se nos minutos finais da palestra, a pessoa escutar uma palavra que lhe toque verdadeiramente o coração, já será um grande passo em seu benefício).
Muito mais que atender aos interesses da Terra, a Casa Espírita faz nossa iniciação nos ideais do Céu, mostrando-nos a estrutura e funcionamento das Leis Naturais, através da divulgação do espiritismo. Simultaneamente convoca-nos à sua observância como o único caminho para que nos libertemos de sentimentos inferiores como o egoísmo, a vaidade, o orgulho, geradores de todos os nossos infortúnios. Somente assim nos habilitaremos a viver felizes, contribuindo para a construção de um mundo melhor e uma sociedade mais feliz, com o empenho de nossa própria renovação.
O desconhecimento desses objetivos induz a alguns enganos lamentáveis, O principal deles relaciona-se com a famosa “consulta”, onde os freqüentadores querem conversar com os Espíritos, ouvir a promessa de decisiva intervenção ou receber a indicação de “poções” infalíveis em seu benefício.
Pensando dessa maneira, poucos se vinculam ao Centro Espírita, que tomado à conta de hospital, é compreensível que os “pacientes” tendam a afastar-se atendendo a dois motivos:
  • melhoraram e consideram desnecessário continuar o tratamento;
  • ou não melhoraram e resolvem procurar ajuda em outro lugar, e ainda saem dizendo: “Eles não resolveram o meu problema”.
Devemos evitar que a atividade do Centro gire em torno de receituários e aconselhamentos espirituais, que podem amenizar determinados problemas mas jamais os resolvem, porquanto atacam efeitos sem remontar às causas.
Se um alcoólatra procura o Centro porque está com uma crise hepática, pouco valerá cuidar apenas de seu fígado. E indispensável ajudá-lo a superar o vício.
Se alguém é envolvido por Espíritos que o atormentam com idéias e sentimentos infelizes, será ocioso afastá-los simplesmente. Eles sempre retornarão. A providência fundamental é ajudar o obsidiado a modificar seu padrão vibratório com a assimilação de conhecimento renovador. Então ele próprio se libertará em definitivo.
Certa feita uma senhora perguntou a Divaldo Pereira Franco, qual seria o método mais eficaz de se afastar os maus espíritos, ao que Divaldo respondeu com outra pergunta: “Porque afastá-los? Afaste-se você deles, mudando o seu padrão vibratório.”
No Centro Espírita idôneo, não há manifestações mediúnicas nas reuniões públicas, mas ainda hoje muita gente confunde Espiritismo com manifestação dos Espíritos.
Evidentemente, há ali os trabalhos práticos, em vários dias (é parte das atividades espíritas), mas privativamente, em pequenos grupos, dos quais participam companheiros que têm conhecimento do fenômeno mediúnico e da responsabilidade que envolve seu exercício. Muitos de nossos desajustes guardam sua origem no desconhecimento dos mecanismos que regem nossas relações com o mundo dos Espíritos.
Bem! Algumas perguntas nos assomam aos lábios:
Se a Casa Espírita não é um hospital do além, não nos receita remédios, não podemos falar com os espíritos ou nossos entes queridos, então por que ir à Casa Espírita?
Resgatemos então os seus reais objetivos.
Nas reuniões públicas são comentados “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e “O Livro dos Espíritos”. O primeiro aborda o aspecto religioso da Doutrina Espírita.
“Ué! Espiritismo é religião?” Sim! Mas uma religião diferente, sem cerimônias, sem ritos, sem rezas (onde o coração não participe). Seu objetivo não é de formalizar uma atitude religiosa com o comparecimento ao templo ou a adoção de determinada postura física, mas de renovar nossas concepções a respeito da comunhão com Deus. Devemos ser espíritas para nós mesmos e não para mostrarmos aos outros.
Devemos procurar Deus no único lugar onde realmente o encontraremos - na intimidade de nosso coração. Com esse propósito Kardec comenta os ensinamentos de Jesus em sua essência - a moral evangélica - demonstrando ser indispensável que nos renovemos para o Bem.
A fim de que nos sintamos estimulados a esse esforço temos em “O Livro dos Espíritos”, síntese filosófica da Doutrina, a resposta racional e lógica para os “porquês” da Vida. Por que estamos na Terra, por que sofremos, por que experimentamos frustrações, por que há tanta violência no Mundo, por que a enfermidade grassa, e muito mais, convidando-nos a desenvolver a capacidade de reflexão, no empenho de conhecermos a nós mesmos e o que nos compete fazer.
As reuniões públicas do Centro Espírita devem ser tomadas à conta de uma iniciação espírita, onde participaremos de um banquete de luzes que enriquecem a existência.
Para tanto é preciso superar a concepção distorcida e irreal do centro-hospital, com pleno entendimento de que ele é, acima de tudo, uma abençoada escola.
Bem mas e se aparecer um desses irmãos equivocados? O que fazer? Devemos recebê-los de braços abertos, escutando-os, consolando e esclarecendo amorosamente, renovando-lhes o convite a buscarem uma casa espírita, fazendo-os ver que podem rumar para a cura da alma e também para cura do corpo.
É aí que entra a nossa participação. O Espiritismo nos convida a todos que participamos do Movimento Espírita, (Seareiros, palestrantes, diretores, ouvintes) a realizar este nobre trabalho em favor dos irmãos angustiados.
  • Antes de cogitar dos benefícios que o Centro Espírita pode nos oferecer, procuremos conhecer a Doutrina Espírita. Muita gente perde valiosas oportunidades de edificação por não atentar a essa necessidade.
  • Leia e estude as obras básicas e as complementares. O livro espírita é precioso repositório de bênçãos que deve estar sempre ao alcance de nossa mão.
  • Eleja os dias da semana em que comparecerá ao Centro Espírita, assumindo, perante si mesmo, compromissos de assiduidade e perseverança.
Irmãos reticentes e ainda não convencidos poderão perguntar:
- Eu não posso estudar e aprender em casa sozinho? Pode.
- Sem ir à Casa Espírita, eu não posso ajudar aos necessitados no meu bairro? Evidente que sim.
- Ou em hospitais, orfanatos, asilos?...Resposta positiva.

Então por que ir à casa Espírita?

  • A Casa Espírita idônea, é um ambiente mais propício para encontrarmos a paz, o reconforto, compreensão, esclarecimentos.
  • A Casa Espírita é o lugar onde espíritos iluminados, vem em missões de divulgação das Leis Naturais, bem como em atendimento aos sofredores dos dois planos da vida.
  • Na Casa Espírita é onde irmãos encarnados dedicados (inspirados pelos mentores), buscam em pesquisas, nos passar a interpretação correta da mensagem do Cristo através de palestras edificantes.
  • Na Casa Espírita, com a divulgação dos ensinos de Jesus, compreendemos aos poucos que seremos cada vez mais felizes quanto mais pautarmos a nossa caminhada de acordo com as Leis Naturais.
  • Na Casa Espírita, devido à reunião dos trabalhadores do Cristo, a atmosfera espiritual está repleta de luzes e energias salutares que reorganizam as nossas forças.
  • Na Casa Espírita, relembraremos os ideais cristãos, buscando sufocar as nossas imperfeições e elevarmos os nossos valores morais, gravados indeléveis em nossas consciências, por bondade do Criador.
O Espiritismo é uma doutrina libertadora e faz um bem enorme a quem se coloca sob sua orientação a serviço de Jesus.

Bibliografia:


  • Uma Razão Para Viver – Richard Simonetti

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Espiritismo sem Espíritos Tem sentido? Por Alamar Régis Carvalho

Eu me considero muito liberal, não abro mão do exercício da minha Liberdade, fico indignado quando vejo pessoas que ainda insistem em cercear o direito à liberdade dos outros, sou aberto a novas idéias, (e não é por questão de opção não, é por questão de respeito à minha inteligência) e não me enquadro de forma alguma no perfil do conservador que congela as suas idéias e os seus conhecimentos, recusando tudo o que esteja além das suas limitações culturais.
Todavia, quando falamos em Espiritismo, desde que o tratamos com honestidade, não podemos deixar de nos guiar pela sua base, que é a própria obra do Allan Kardec. Tudo o que contrariar as idéias ali muito bem expostas, deixa de ser Espiritismo, embora possa ser alguma coisa boa. Eu disse isto em matéria anterior.            
Se considerarmos que o próprio espírito Emmanuel, no início da sua relação com Chico Xavier, o alertou para que o abandonasse e ficasse com Kardec, caso algum dos seus ensinamentos ou sugestões estivessem em contradição com ele, é porque a base é sólida mesmo e não podemos fugir disso.
Observemos bem este fundamental detalhe:
O Espiritismo veio ao mundo através dos Espíritos, em comunicações estabelecidas entre criaturas desencarnadas e encarnadas, as obras básicas todas foram construídas a partir da orientação direta de Espíritos, as obras trazidas ao mundo através de Chico Xavier, altamente adoradas e veneradas pelo movimento espírita, sobretudo o brasileiro, vieram também todas através de Espíritos, nenhuma do próprio Chico. Toda a obra vinda através de Divaldo Franco, também amplamente utilizada pelo movimento espírita, veio através de Espíritos, nenhuma de autoria dele mesmo, que é o professor e que é um homem de uma cultura extraordinária...
Tem algum sentido a proposta de uma prática do Espiritismo sem os Espíritos?
Existe sim. Muita gente está fazendo isto, há muito tempo.
Conheço pessoas que já estão no Espiritismo há anos e nunca tiveram qualquer experiência em participar de nenhuma reunião mediúnica.
Em várias instituições espíritas, é imposto que as reuniões mediúnicas devem ser realizadas apenas uma vez por semana, com apenas um grupinho, bem resumido. Conheço caso de instituição que tem a freqüência de público contada na casa dos milhares, nas palestras e outras atividades, mas apenas seis pessoas participam da sua reunião mediúnica. 
Existe justificativa para isto?
Na cabeça das lideranças que impuseram esse tipo de regra no movimento espírita há sim.
Justificam sob a alegação de que “a fase do fenômeno já passou”. Que agora devemos priorizar a fase dos estudos, para o nosso desenvolvimento moral. Todo mundo tem que ler, ler, ler, ler, ler e ler...
Sei de pessoas que estão “estudando” o “Livro dos Espíritos” há quatro anos sem sair dele. Em nome da “humildade” criaram um dogma em cima daquele diálogo Chico/Emannuel, quando Chico diz que já leu o livro e Emmanuel manda que ele leia novamente; volta a dizer que leu novamente, Emmanuel manda que ele releia; volta a dizer que releu, e Emmanuel manda que ele estude. E com base nisso estão lendo este livro, sempre a partir da questão número 1, o “Que é Deus?”, sem atentarem para a importância da “Introdução” e a “Conclusão” da obra.  
Será que temos que considerar toda e qualquer iniciativa de contato com os espíritos desencarnados necessariamente com sendo fenômeno?
Eu, particularmente, não considero um contato com uma criatura desencarnada fenômeno nenhum e nem nada que seja algo tão impressionante assim.
Pelo que nos deixa muito claro a doutrina, a criatura desencarnada é exatamente a mesma criatura humana, movida dos mesmos sentimentos, apenas deixando de ter o corpo carnal. Muitas delas com conhecimentos inferiores aos meus, outras com conhecimentos mais ou menos no mesmo nível e inúmeras outras com conhecimentos bem acima. Nenhuma delas com rotulação de santas ou qualificativos de demônios.
Portanto administro as minhas emoções, o meu tom de voz, a minha vibração e o meu estilo no diálogo com um espírito desencarnado em um centro espírita do mesmo jeito que me porto na conversa com a pessoa da cantina, da livraria, da diretoria, da platéia, sem qualquer esforço de colocar máscara ou forçar comportamento teatralizado.
Sou muito chegado a brincadeiras com as pessoas, gosto de perguntar a algumas pessoas amigas, espíritas, se “já aceitaram Jesus”, e coisas assim. Faço a mesma coisa quando estou em contato com um espírito desencarnado, sem que isto represente necessariamente falta de respeito, como acham alguns.
Obviamente que quando estamos em um diálogo tratando de um assunto mais sério, que requer uma certa concentração no que está sendo conversado, (estou me referindo a concentração no assunto que está sendo tratado, não necessariamente naquela concentração de ter que fechar os olhos, ficar com a mão na testa e de cabeça baixa. Não é bem aquilo), naturalmente não cabe bem uma brincadeira, da mesma forma que não caberia em determinadas reuniões com encarnados.
Já estou fugindo do tema que me propus a falar.
Pois bem. Eu dizia que muitos espíritas cassaram o mandado dos espíritos, parecendo o pessoal do período revolucionário no Brasil.
Existem várias argumentações para justificarem isso:

- “Temos que ter muito cuidado com o animismo!”.
- “Não é aconselhável incensar a vaidade de certos médiuns!”.
- “O importante é o estudo, a fase do mediunismo já passou!”.
- “É preciso ter muito cuidado! É preferível recusar nove verdades a aceitar uma mentira!”.
- “Não temos médiuns preparados para mais de uma reunião por semana”.
           
Ao meu ver essas argumentações não se sustentam.
Quando um dirigente de um centro prescinde do trabalho mediúnico sob a argumentação do cuidado que se deve ter com o animismo, ele está afirmando, implicitamente, que todos os outros trabalhadores da casa são analfabetos no assunto, ninguém conhece Espiritismo, ninguém estudou o Livro dos Médiuns, (só ele sabe), ninguém tem preparo nenhum para identificar os espíritos, todo mundo é bobo a ponto de se deixar enganar por comunicações falsas e por aí vai.
Ao afirmar que não é aconselhável incensar a vaidade de certos médiuns, é sinal que o seu centro não tem capacidade para educar ninguém, principalmente no tocante à educação mediúnica. Será que todos os médiuns da casa são tão despreparados assim, que vão se deixar levar pelo excesso da vaidade, pela possibilidade de serem usados por algum espírito mais evoluído?
A mesma dúvida é lançada sobre o preparo dos demais trabalhadores da casa, quanto a possibilidade de aceitarem comunicações mentirosas de espíritos levianos.
Não vejo justificativas nessas argumentações.
Vejo mais como despreparo da direção da casa por motivos diversos que justificariam um escrito só sobre este assunto, que não quero colocar aqui.
É claro que tem muita gente que, também pelo despreparo, exagera e comete absurdos no aspecto da reunião mediúnica.
Qualquer espírito que chega dizendo “que a paz do Senhor esteja com todos”, “louvado seja nosso senhor Jesus Cristo” e coisas mais ou menos assim, já é recebido como “espírito de Luz”. Todo mundo fica caladinho, uns dizendo “psiu” pra quem faz algum ruído, ouvem tudo o que o espírito diz, ninguém pergunta nada, ninguém questiona nada, ninguém discorda de nada e depois do trabalho recomenda que todos façam exatamente aquilo que o “mentor” mandou.
É exagero também. É despreparo espírita também. Não é isto que eu estou querendo também.         
Deixe eu contar mais uma experiência acontecida por volta do ano de 1994, quando morava em Belém do Pará.
Naquela cidade eu aparecia muito na televisão, em rádio e em jornais porque era muito convidado para falar sobre informática, informatização do serviço público, sobre espiritismo e sobre um monte de coisas. Sempre tive muito próximo do pessoal da imprensa por ter sido ali um diretor de televisão e tenho muitos amigos queridos.
Criei naquela cidade, a partir de março de 1987 a “Caravana da Caridade”, que era um trabalho particular meu, com a minha família, de sair todas as noites, para alimentar uma média de cem pessoas, entre mendigos, meninos de rua, prostitutas etc. conseguindo fazer o trabalho no anonimato por muitos anos, com poucas pessoas sabendo.
Certo dia uma equipe da TV Liberal (Rede Globo local) estava na rua, fazendo uma reportagem outra, quando nos viu realizando aquele trabalho. Reconheceram-me, acharam bonito, filmaram a tarefa e mostraram na edição do jornal do dia seguinte. Aí toda a imprensa local deu também divulgação à tarefa e alguns colaboradores outros começaram a aparecer.
Eu costumava realizar, também, grandes eventos espíritas, levando expositores de outros Estados, reunindo um montão de gente no grande auditório da União Espírita Paraense e do Centro de Convenções Tancredo Neves, CENTUR.
Dentre eles, haviam dois companheiros atuantes do movimento espírita local, bastante queridos, que eu tenho a maior estima.
Certo dia ambos foram à minha empresa avisarem que um espírito comunicante, considerado um dos “mentores da casa”, numa reunião mediúnica no “Educandário Jesus de Nazaré”, (um centro espírita de lá), mandou que me levassem até lá, na próxima reunião, porque ele queria muito conversar comigo.
Aceitei o convite e fui até o centro, com os dois. Iniciou-se o trabalho mediúnico e, através de uma médium ... lá vem o espírito!
Começou me elogiando, pelo trabalho de divulgação do Espiritismo que eu fazia... e todo mundo de cabeça baixa, caladinho, só escutando.
De repente veio a chamada de atenção:
- “Mas você precisa ter muito cuidado, porque não se deve envolver interesses políticos com espiritismo. É preciso separar as coisas e não se pode usar indevidamente o nome do espiritismo para promoções pessoais...”
E por aí foi a comunicação. Era daquele tipo de comunicação que fala uma frase e dá uma pausa um pouco longa, para falar a próxima, entende?
Numa hora dessa eu, que nunca tive qualquer pretensão política em minha vida, exatamente na cidade onde tive todas as oportunidades para isto, inclusive tendo recebido convites para entrar na política, por parte de duas das maiores expressões políticas de todos os tempos no Pará, sendo que um deles chegou a me dizer que faria de mim o deputado mais votado ali, pelo meu “jeito”, segundo ele, comecei a perder a paciência.
E nas pausas longas eu começava a perguntar:
- “Você já concluiu, meu irmão?”. “Tem mais alguma coisa pra dizer?”. “Quando você concluir, antes de ir embora, me escute porque eu também tenho coisas para lhe dizer”.
E nessa hora o pessoal participante da reunião começava a ficar preocupado, o que estava ao meu lado começa a me cutucar com o cotovelo com frases do tipo:
- “Fique quieto, Régis, é o mentor da casa!!!!!!”. (no Pará o pessoal me conhece como Régis).
- “Não questione o espírito”, “mantenha-se em silêncio”, “olhe a concentração”, “vamos manter a disciplina no ambiente”...
Olhe, gente, eu não me sirvo para ser espírita besta. Não faço o perfil do espírita trouxa.
Não teve nem conversa. Pedi a palavra e disse a ele:

- “Meu irmão ou minha irmã. Você vai me desculpar, mas você falou um monte de bobagens aí. Eu nunca tive qualquer pretensão política na minha vida, não realizo a Caravana da Caridade para me promover, não peço a ninguém para viver aparecendo em rádio e na televisão, sempre sou convidado. Portanto você está muito equivocado, está enganando as pessoas que confiam na sua boa fé aqui nesta casa espírita e isto que você está fazendo não é recomendável...”
Foi um “Deus nos acuda”. Todo mundo nervoso, pedindo para que eu calasse a boca e me contivesse.
Depois a médium se “estribuchou” toda, o espírito foi embora e um minuto depois, voltou chorando muito, pedindo desculpas.
Era, sem dúvidas, uma manifestação anímica. Muitas pessoas do movimento espírita vêem determinadas coisas, começam a achar um monte de coisas, colocam aqueles seus achismos como sendo verdade, muitos afins concordam com aquela interpretação e terminam levando para a “mesa” mediúnica, para dar “autenticação de Espírito” às suas interpretações.
Peraí!!! Que diabo é autenticação de espírito? Eu sei lá!, é coisa que inventei aqui agora, mas sei que você entende o que quero dizer.
Conclusão.
Precisamos ter cuidado sim, muito cuidado mesmo, e não nos podemos deixar levar por fanatismo religioso porque o Espiritismo não admite isto. Espírito desencarnado não é e nunca foi santo. Não me consta que tenha havido alguma reunião com o “clero” da FEB para canonizar algum espírito desencarnado, nos moldes da igreja católica, onde quem determina quem é e quem não é santo são os cardeais.
Cuidado e alerta geral devemos ter, sem dúvida alguma.
Mas daí a estabelecer que devamos fazer o Espiritismo sem os Espíritos, não tem sentido nenhum.
Quando uma reunião mediúnica é constituída por espíritas conhecedores do Espiritismo, lúcidos quanto à prática espírita, sem igrejismo, sem rituais (por incrível que pareça, há isto também), sem aquelas concentrações forçadas, sem aqueles “psius” bobos, sem o tal “o silêncio é uma prece” (porque não é) e toda aquela formalidade e, muito pelo contrário, relacionando-se com os espíritos com naturalidade e normalmente, creio que espírito metido a esperto nenhum vem se fazer de besta para iludir os outros, porque ele não vai se dar bem.
Voltemos a fazer o Espiritismo com os Espíritos, porque muitos deles têm muito a nos ensinar ainda, é muito bom trocar idéias com amigos que, pela facilidade de não terem as dificuldades do corpo físico, têm condições de deslocarem muito mais fácil para observarem certas coisas, também estudam, também pesquisam, também tem curiosidades e também aperfeiçoam os seus conhecimentos no mundo espiritual.
Consta que, em uma reunião mediúnica muito descontraída em Salvador, no contato natural dos participantes com um desses espíritos que são considerados como uma espécie de “medalhão” do Espiritismo, perguntaram-lhe:
“Por que você não se comunica através de outros médiuns, em outros centros espíritas, nas diversas localidades?”.
Quando a benfeitora respondeu:
“Porque os espíritas não deixam. Quando o médium percebe a minha presença, ele é o primeiro a achar que está perturbado e que não sou eu...”. E falou mais coisas.
De fato é assim mesmo.
Imagine em um centro espírita pequeno, numa cidadezinha do interior do Piauí, do Rio Grande do Sul, de Goiás... de repente a dona Laura, médium vidente, comunica que ela está vendo ali o Doutor Bezerra, que quer dar uma comunicação através dela.
O que vai acontecer? Quais os comentários que ali começarão a surgir, na hora?
- “Huuummm. A vaidade já começou a subir pela cabeça. Agora já está querendo receber logo o Dr. Bezerra de Menezes.”
E surgirão aquelas orientações muito “fraternas”:
- “Olhe a vigilância, minha irmã! Vamos orar! Cuidado com os mistificadores!...”
É sempre assim, gente.
Muitos espíritas determinaram que o Emmanuel, o André Luiz, o Humberto de Campos e outros assinaram contrato de exclusividade com Chico Xavier, com firma reconhecida em cartório de Uberaba. Joanna de Ângelis, Manoel Philomeno de Miranda, Vianna de Carvalho e outros assinaram contrato de exclusividade com Divaldo, com firme reconhecida na Calçada, em Salvador.
A própria médium, num caso desse, em nome de uma “humildade” mal interpretada, cria a maior dificuldade, não dá passagem e sai da concentração porque acha que ela não é merecedora de portar a mensagem de um espírito desse, porque foi eleito como “medalhão” por parte do movimento espírita. Quando na realidade, temos médiuns notáveis e extraordinários, com condutas morais elevadas, sintonia absoluta com o Amor e a Caridade, em muitos centros espíritas de todo o mundo.       
É preciso maior lucidez por parte de todos nós espíritas, com mais coerência e menos valores de aparência.
Não vejo razão nenhuma em fazer Espiritismo sem Espíritos. Muito pelo contrário, só encontraríamos vantagens. Isto é, se não formos espíritas bobos.
(Artigo reproduzido com autorização do autor)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Percepções da Realidade Renato Costa

Algumas pessoas estranham que os relatos sobre o que se passa no plano espiritual não estejam todos em perfeita concordância, afirmando ser isso uma evidência de que os mesmos não merecem crédito. Tentaremos, neste estudo, ilustrar o porquê das diferenças entre os relatos da realidade espiritual utilizando uma analogia, permitindo, assim, que se depreenda que as ditas diferenças não evidenciam, de modo algum, que os relatos sejam inverossímeis.
Suponhamos que um amigo nosso, que vive na Suécia, nos venha visitar aqui no Rio de Janeiro, em pleno verão de quarenta graus. Imaginemos que ele está a serviço e que nós tenhamos um único dia, melhor dizendo, um único fim de dia para levá-lo a conhecer o Rio. Hesitantes, e após ponderar os prós e os contras de cada programa possível, convidamos nosso amigo a conhecer o Pão de Açúcar à noite, com o céu límpido e estrelado, esperando dar a ele uma idéia da cidade, pelo menos do trecho da Zona Sul e da Baía de Guanabara que dá para ver de lá.
Na manhã seguinte nos despedimos e ele volta à sua gélida terrinha, enquanto ficamos derretendo em nosso abençoado paraíso tropical. Ao encontrar nossos amigos cariocas, mais tarde, um deles nos pergunta: "Como foi ontem com seu amigo sueco?" Respondemos, desanimados: "Não sabemos. Ele ficou o tempo todo calado, olhando o céu, sem interesse pelo que queríamos mostrar. Deve ter sido porque não estava acontecendo nenhum show e porque estava tudo muito sem graça. Sabe? Ficamos chateados de não ter pensado em um programa melhor".
Ao chegar em Estocolmo no anoitecer do dia seguinte, o amigo que, sem que soubéssemos, era astrônomo amador, encontra-se com seus amigos e comenta, extasiado: "Vocês não imaginam a beleza sem par que é o céu visto do Pão de Açúcar no Rio. Fiquei tão envolvido a contemplar tamanha riqueza de detalhes que nem conversei com o meu pobre amigo brasileiro que ali me tinha levado." E desata a descrever as constelações que viu, os brilhos fugidios dos balões sonda, os rastros das nebulosas...
Percebeu a analogia, amigo leitor?
Nós, por não entendermos nada de astronomia, não nos lembramos de nada, a não ser que o passeio foi aborrecido e sem graça. Ele, por conhecer o céu em todas as suas minúcias de observação, tem uma recordação detalhada e preciosa de uma noite, para ele, inesquecível.
Do mesmo modo se passa com os Espíritos que, no desdobramento mediúnico, visitam as dimensões espirituais. O grau de entendimento que um Espírito tem da relação espírito/matéria e do que o espera no outro plano determina o detalhe e a precisão da lembrança que esse Espírito terá do que lhe aconteceu.
É claro que existe outro fator, que é o grau de lucidez do Espírito quando chega às dimensões espirituais. Um Espírito perturbado, com idéias fixas na cabeça, estará exclusivamente focado nessas idéias e não prestará a menor atenção ao que se passa à sua volta. Nossa simples analogia também contempla essa hipótese. Se o amigo sueco tivesse subido ao Pão de Açúcar com a mente obcecada pelo trabalho, pelas tarefas que tinha pela frente no dia seguinte, pelos problemas que lhe cabia resolver, ele teria olhado para o céu e nada teria visto pois o foco de sua visão não estaria no céu. E, mesmo sendo astrônomo, mesmo conhecendo a geografia celeste, de nada lhe teria valido tal saber. Nesse caso, interpretando a analogia, está o espírita estudioso que se encontra em perturbação. Ele sabe o que o espera no outro plano, mas a sua mente não está dedicada à observação do meio onde se encontra, porém focada exclusivamente nos problemas que o afligem.
Concluindo, a percepção da realidade no plano espiritual é sempre tão detalhada e precisa quanto preciso e detalhado for nosso entendimento a seu respeito e quão equilibradas estiverem nossas emoções quando o visitarmos. Como não existem dois Espíritos encarnados com o mesmo grau de sabedoria e tampouco com o mesmo índice de equilíbrio espiritual, é forçoso que haja diferença entre os relatos de um e de outro sobre o plano espiritual, sendo que tal diferença, como vimos, não pode, absolutamente, servir de argumento para se afirmar serem falsos os ditos relatos.

(Artigo publicado originalmente em O Espírita Fluminense, Ano XLIX, no 297, 

Janeiro/Fevereiro 2005)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Os Fundamentos do Espiritismo e suas Conseqüências Sérgio Biagi Gregório

1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste estudo é fazer um resumo da Doutrina dos Espíritos. Este trabalho consta de três partes: a doutrina propriamente dita, os fatos que originaram tal doutrina e as conseqüências morais que daí dimanam.
2. CONCEITO
Fundamento
1. A expressão fundamento comporta várias significações tais como origem, princípio, raiz ou razão de ser, finalidade etc.
2. Princípio em que repousa de fato uma ordem de fenômenos.
3. Princípio em que repousa de direito um sistema de asserções ou de regras, i.é., que as torna legítimas do ponto de vista lógico, moral ou jurídico.
4. Causa no sentido de razão de ser. Aristóteles diz: "Acreditamos conhecer um objeto de maneira absoluta – não acidentalmente ou de modo sofístico – quando acreditamos conhecer a causa por que a coisa é e acreditamos conhecer que ela é causa da coisa e que esta não pode ser de outra maneira". Nesse sentido, causa é razão, logos, pois não só permite compreender a ocorrência de fato da coisa, mas também o seu "não pode ser de outra maneira", sua necessidade racional. (Abbagnano, 2000)
3. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Quem compulsar os livros de Allan Kardec, principalmente a Revista Espírita, encontrará as explicações que o Codificador dava aos seus contraditores. Ele afirmava que o Espiritismo não é a idéia de uma única pessoa (e muito menos a dele), mas a essência das instruções ditadas pelos Espíritos superiores. Esclarecia que estes (os contraditores) não deviam temer a nova doutrina, pois de duas uma: ou é uma utopia ou uma realidade. Se o Espiritismo fosse uma utopia, ele cairia no descrédito, pois os fatos se incumbiriam de desmoralizá-lo; se fosse uma verdade, os fatos acabariam por consolidá-lo, quer os críticos queiram ou não.
Ao informar-nos de que a obra não lhe pertence, enfatiza o seu papel de organizador, compilador, codificador desses ensinamentos. Acrescenta ainda que qualquer pessoa pode absorvê-lo, pois os conhecimentos ali expostos encontram-se no livro da natureza.
4. DOUTRINA ESPÍRITA
Dentre os seus pressupostos básicos, anotamos:
4.1. EXISTÊNCIA DE DEUS
Para o Espiritismo, Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Deus é eterno, imaterial, soberanamente bom e justo. Dele vertem-se dois princípios, o princípio material e o princípio espiritual. Embora nos falte um sentido para compreendê-Lo, podemos deduzir a magnanimidade de sua obra através de tudo o que existe no universo. Em outras palavras, é pelos efeitos que chegamos às causas. Assim, se o efeito for inteligente a causa também o será.
A primeira pergunta de O Livro dos Espíritos é: "Que é Deus?". Ao responder que é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, chama-nos a atenção para o seguinte: não devemos ver Deus à nossa imagem e semelhança, mas, sim, à imagem e semelhança Dele. Quer dizer, deveríamos fazer um grande esforço para evitar a Sua concepção antropomórfica. Ao contrário, percebendo-O como uma luz ou uma energia – embora ainda formas materiais –, já é um começo para transcendermos a dogmática religiosa.
4.2. REENCARNAÇÃO
Este é um princípio, sem o qual, não podemos compreender o alcance da Doutrina Espírita. A reencarnação, que consiste em admitir para o homem muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia da justiça de Deus com respeito aos homens de condição moral inferior; a única que pode explicar o nosso futuro e fundamentar as nossas esperanças, pois oferece-nos o meio de resgatarmos os nossos erros através de novas provas. A razão assim nos diz, e é o que os Espíritos ensinam. (Kardec, 1995, pergunta 171)
Muitos se dizem espíritas, mas não acreditam na reencarnação. Falta-lhes o cerne da doutrina, pois a compreensão do que somos necessita, muitas vezes, do conhecimento intuitivo do que fomos no passado. Sem esse elo de ligação, o nosso raciocínio fica embotado.
A crença na reencarnação leva-nos aos princípios correlatos: preexistência e sobrevivência do Espírito e pluralidade dos mundos habitados. Jesus ensinou-nos que na casa do Pai há muitas moradas. Quer dizer, não podemos imaginar a vida existente só em nosso Planeta, quando no Universo existem outros tantos milhões de orbes.
4.3. MEDIUNIDADE
A mediunidade, faculdade humana natural na qual podemos entrar em contato com Espíritos mais evoluídos, deve ser considerada também como um princípio fundamental. É através dela que o ser humano aumenta a sua capacidade de compreensão do Universo. Como traduzir a vida e convivência dos Espíritos desencarnados, sem entrar em contato com eles? Se eles não nos alertassem sobre as bem-aventuranças futuras, como a nossa visão terráquea poderia vislumbrar um mundo feliz?
No que tange à mediunidade, convém não confundir o desenvolvimento mediúnico com o fenômeno mediúnico. O desenvolvimento mediúnico é o esforço hercúleo de procurar novos conhecimentos, novas instruções e nova maneira de entender uma situação, uma dificuldade. O fenômeno mediúnico é simplesmente o fato mediúnico, sem estudo, sem reflexão.
4.4. EVOLUÇÃO
De acordo com a lei do progresso, ensinada pelos Espíritos superiores, estamos permanentemente num processo de evolução. Nesse sentido, quer queiramos ou não, somos obrigados a evoluir. É que esta lei é compulsória. Às vezes, com os nossos atos impensados, detemos o seu avanço, mas nunca o retardaremos indefinidamente.
A transformação moral para o bem deve ser a tônica de nossa vida. O que adianta sabermos tudo que há no mundo, se não nos tornarmos melhores no convívio com o próximo?
5. OS FATOS
5.1. OS CIENTISTAS
A ciência, depois que se tornou teórico-experimental, começou a deduzir as suas conclusões dos fatos observados. O cientista formula teoricamente as suas hipóteses; depois, faz experimentos para verificar se elas estão corretas ou não. Se os dados coletados responderem afirmativamente, proclama-os como uma nova teoria; se os dados responderem negativamente, reformula as suas hipóteses e tenta novamente. E assim, por intermédio de tentativas e erros, vai construindo o edifício de uma ciência particular.
O Espiritismo procede da mesma forma que as ciências naturais. A única diferença é que se utiliza das percepções extra-sensoriais. E com uma diferença substancial: na ciência natural, a teoria vem antes dos fatos; no Espiritismo, os fatos precedem a teoria. Exemplo: a teoria da existência dos Espíritos não foi concebida antes da observação dos fatos; foram os próprios Espíritos que se apresentaram, e deram ensejo à formulação da teoria.
5.2. CONVERSÃO DOS SÁBIOS
O verdadeiro cientista é um ser humano sem preconceitos. Ele simplesmente se rende aos fatos. Por isso, toda a vez que surge uma teoria mais avançada, ele procura mudar o seu ponto de vista a respeito da mesma. O Espiritismo propiciou este ensejo de mudança a muitos cientistas. Muitos deles aproximaram-se dos fenômenos mediúnicos com o intuito de desmascarar a fraude. Não encontrando razão suficiente, acabaram aceitando os pressupostos espíritas e tornaram-se grandes pesquisadores no campo mediunidade. Exemplo: William Crookes (1832-1919), figura preeminente no mundo científico, famoso pelas materializações de Katie King, confessa que iniciou as suas investigações sobre fenômenos psíquicos pensando que tudo fosse truque.
5.3. OBSERVAÇÃO DOS FATOS
O Espírita deve ter em mente que a observação dos fatos mediúnicos não segue a mesma dinâmica da observação dos fatos em ciência natural. Em se tratando dos fenômenos mediúnicos, os Espíritos não estão sempre à nossa disposição para as nossas pesquisas. Não é como o químico que vai a um laboratório, mistura alguns elementos e descobre uma dada lei da matéria. No campo da mediunidade, é preciso aguardar a manifestação espontânea dos Espíritos, pois eles não são autômatos. Podemos evocá-los a qualquer hora, mas não há garantia de que estarão ali naquele momento.
Para que se tenha cunho científico, precisamos de um número grande de dados. O Espiritismo, para se dizer científico, deve proceder da mesma forma. Assim, convém ser moderado, paciente e esperar a boa vontade dos Espíritos para aquilo que eles querem tornar público.
6. CONSEQÜÊNCIAS MORAIS
"Se se tratasse apenas de uma coleta de fatos, fácil seria a tarefa do espírita; eles se multiplicariam em toda a parte com tal rapidez que não faltaria matéria; mas os fatos, por si sós, tornam-se monótonos pela repetição e, principalmente, pela similitude. O que é necessário ao homem que pensa é algo que lhe fale à inteligência". (Revista Espírita de 1858, p. 2). Quer dizer, que tipo de ilações morais podemos extrair daquilo que estamos observando?
"O Espiritismo tem conseqüências de tal gravidade, toca em questões de tal alcance, dá a chave de tantos problemas, oferece-nos, enfim, tão profundo ensino filosófico, que ao lado de tudo isto uma mesa girante é pura infantilidade". (Revista Espírita de 1859, p. 191)
6.1. A LEI NATURAL
Depreende-se, do estudo da doutrina, que há uma lei natural regendo os destinos do ser humano. Se nossas ações enveredarem para o bem, seremos recompensados com o bem; se optarmos pelo mal, mais cedo ou mais tarde, seremos recompensados com o mal. A lei de ação e reação funciona matematicamente: recebemos sempre o retorno daquilo que fizermos. Em outros termos: "A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória".
6.2. A LIBERDADE DE AÇÃO
É interessante notar como a Doutrina Espírita ajustou-se bem ao caráter e à personalidade do próprio Codificador, que insistia na liberdade da assimilação doutrinária. Ele adotava a seguinte regra: "expor sem impor". E esta não é a base da verdadeira educação? A construção do saber tem que ser individual. Podemos nos valer dos ensinamentos e exemplos dos outros, mas a construção e o progresso dependem dos nossos esforços. É inútil e prejudicial impor deveres que o indivíduo não considere como tais. O ideal da moral (instruir sem impor), deixando o indivíduo advertido do mal e das conseqüências de suas ações, tem maior eficiência do que programar artificialmente uma reforma interior. (Geley, 1975)
6.3. RECOMPENSA FUTURA
A felicidade repousa na consciência tranqüila pelo dever retamente cumprido. O Espiritismo é o cristianismo redivivo. Nesse sentido, ser espírita nada mais é do que entender e colocar em prática a mensagem de amor ensinada por Cristo. A Doutrina Espírita repousa nisto, ou seja, na transformação moral de nossos sentimentos frente aos acontecimentos da vida. Aquele que odeia, passe a amar; aquele que fere, passe a curar; aquele que reclama, passe a agradecer; aquele que se desespera, passe a confiar em Deus; aquele que se ache solitário, passe a buscar a boa convivência.
7. CONCLUSÃO
A Doutrina Espírita, quando bem compreendida, assemelha-se à atuação do verdadeiro cristão, pois o Espiritismo nada mais faz do que reviver os ensinamentos trazidos por Cristo, sob a inspiração da fé raciocinada.
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Tradução de Alfredo Bosi e Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
GELEY, G. Resumo da Doutrina Espírita. Tradução de Isidoro Duarte Santos. 3. ed., São Paulo: Lake, 1975.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 8. ed. São Paulo: Feesp, 1995.
KARDEC, A. Revista Espírita de 1858.
KARDEC, A. Revista Espírita de 1859.

(Estudo reproduzido do site do Centro Espírita Ismael com a autorização do autor)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

CENTRO ESPÍRITA TEM DONO? Warwick Mota

"Dá conta de tua administração."- Jesus. (Lucas, 16:2.)
Procurando subsídios para uma palestra, folheava o livro Os Mensageiros ¹, quando me detive de forma mais demorada no capitulo 34 intitulado "Oficina de Nosso Lar". O que alguns anos atrás não me chamou a devida atenção ao ler o livro, desta feita me prendeu de forma especial, mas especificamente à frase em que Isidoro se dirige hospitaleiro a André Luiz:
"Entrem!
A casa pertence a todos os cooperadores fieis do serviço cristão"
Tal assertiva nos reportou-me imediatamente a um diálogo que tive com um confrade amigo meu, acerca da construção de um Centro Espírita, em que o mesmo fazia questão de afirmar a todo o momento; vou construir o meu próprio Centro. Pois não se encontrava muito à vontade na instituição a que pertencia.
Tais afirmações, levou-me fazer, uma análise do assunto.
Alguns irmãos, ao se sentirem melindrados por algum motivo nas instituições a que pertencem, libertam sentimentos negativos, como, o egoísmo e o personalismo e saem a falar em altos brados: Vou fundar o meu próprio centro. Não estou colocando em questão a iniciativa altruísta cristã de construir um centro, mas sim a ênfase dada ao pronome possessivo MEU, que nos dá a clara idéia de posse.
E estes irmãos, após terem construído os "seus centros," usam de forma mal disfarçada do termo MEU, para imporem regras e empecilhos aos que desejam integrar-se às tarefas enobrecedoras da casa, colocando explicitamente o personalismo nas tarefas que foram distribuídas anteriormente. Quando estes donos, presidentes e detentores também de outras tarefas e "cargos" da casa, são procurados por trabalhadores da instituição que discordam das suas linhas de pensamento, fazem prevalecer as suas condições de "donos de Centro" e suas opiniões se sobrepõe a tudo. Quem não estiver satisfeito que procure outra casa, aqui eu mando.
Esquecem porém que um grupo espírita é um templo aberto à necessidade e à indagação de todas as criaturas, que não se resume, simplesmente, a simples propriedade particular, mas na sua profundidade maior, à condição de escola de amor cristão, de hospital, de oficina de trabalho e, especialmente, de nossos irmãos desencarnados, que trabalham para o Cristo. Tais lembranças reportam-me a ensinamentos de Emmanuel, no livro Fonte Viva, "Na essência, cada homem é servidor pelo trabalho que realiza na obra do Supremo Pai, e, simultaneamente, é administrador, porquanto cada criatura detém possibilidades enormes no plano em que moureja".
1 - Os Mensageiros, livro da série André Luiz (FEB)
(Publicado na revista O Espírita em 1995 e reproduzido do site do autor com sua autorização)