sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Hierarquia na Casa Espírita

Por Victor Manoel Ventura Seco

“Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes as tratam com império. - Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; do mesmo modo que o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos ”(1)
Uma reflexão, para nós espíritas, se faz necessária sobre um tema relevante e atual. Como deve ser a organização de uma casa espírita? Se a legislação humana prescreve a necessidade de estatuto social, cargos, funções, formação de um conselho e assembléias para as deliberações da sociedade, o que prescreve a legislação divina?
Alguns acham que a casa espírita se assemelha a uma empresa. Entendem que, para o seu bom funcionamento, apesar de não possuir acionistas, não visar lucro, deve ter presidente, diretores, gerentes, coordenadores, supervisores, e uma linha hierárquica bem definida, com ordens sendo proferidas pelos cargos superiores e sendo obedecidas plenamente pelos cargos inferiores ou subalternos. Pensam que assim, fica preservada a harmonia da mesma, pela imposição de uma disciplina rígida e inquestionável a ser respeitada á risca. Argumentam que sem isso, não se tem trabalho de equipe.
Alguns acham que a casa espírita é como qualquer clube, agremiação, ONG, enfim, como qualquer associação de pessoas reunidas num mesmo ideal e defendendo os mesmos interesses. Como os clubes esportivos, as associações de profissionais, os sindicatos etc.. Argumentam que os cargos, a hierarquia e a política são fundamentais. Não se vive sem isso. Fica bem na fita aquele que fizer um melhor marketing pessoal, aquele que vender melhor a sua imagem. Pode até ser eleito presidente! Não importa se essa imagem é verdadeira ou não. O que importa é que as pessoas se convençam que ele é “O Cara”.
Alguns acham que a casa espírita, por ser uma associação de pessoas com ideal religioso, deve funcionar como a maioria das instituições religiosas do planeta terra. Argumentam que assim deve ser. Castas bem definidas de sacerdotes, noviços, líderes religiosos máximos, crentes, adeptos, seguidores fiéis ou simplesmente simpatizantes, e naturalmente com uma estrutura hierárquica mais rígida ainda. Com a disciplina e obediência cegas beirando as raias da irracionalidade. Tudo para preservar, acima de tudo e de todos, a instituição religiosa, sua hierarquia e sua tradição.
Mas, como organizar uma casa espírita atendendo a legislação divina? O que ela prescreve? O que os espíritos superiores nos aconselham e ensinam sobre a sua organização?
Nosso querido Mestre Jesus alerta os apóstolos “Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes os tratam com império. - Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo” (1).
Kardec esclarece outro sábio ensinamento de Jesus "Será o maior no reino dos céus aquele que se humilhar e se fizer pequeno como uma criança, isto é, que nenhuma pretensão alimentar à superioridade ou à infalibilidade.” (2) E complementa mais adiante “Não procureis, pois, na Terra, os primeiros lugares, nem vos colocar acima dos outros, se não quiserdes ser obrigados a descer. Buscai, ao contrário, o lugar mais humilde e mais modesto, porquanto Deus saberá dar-vos um mais elevado no céu, se o merecerdes” (3)
Emmanuel no livro “Seara dos Médiuns”, sabiamente apresenta ponderações sobre a organização do espiritismo e nos ensinando:
”Todos estamos concordes em que a Doutrina Espírita revive agora o Cristianismo puro; no entanto, há muita gente que lhe estranha a organização, sem os chamados valores nobiliárquicos que assinalam a maioria das insti­tuições terrestres.
A força de se iludirem com a idolatria, que sempre nos custa caro, muitos companheiros, menos vigilantes, desejariam condecorar trabalhadores da Nova Revelação, criando galerias para o relevo pessoal. E se pudessem de­terminar o rumo das coisas, no consenso opinativo, de­certo que há muito estaríamos mobilizando doutrinado­res-chefes e médiuns-titulares, com as nossas casas de serviço perdendo tempo em mesuras e rapapés.”....
“.....Não existem, desse modo, médiuns maiores ou mé­diuns menores, favorecendo, entre nós, a constituição de prerrogativas e castas....”
“ ....Sustentar a idéia espírita, indene de qualquer imagi­nária fidalguia para aqueles que a servem, é dever para todos nós. ...” (4)
No livro “Nosso Lar”, capítulo 9, André Luiz relata como foi a atuação do governador frente ás exigências descabidas de mesas lautas, bebidas excitantes, dilatando velhos vícios terrenos de alguns moradores da cidade espiritual. Amorosamente e com muita paciência e preseverança convidou instrutores de uma esfera muito elevada para instrução de todos. Organizaram-se assembléias numerosas. O Governador, porém, jamais castigou alguém. Convocava os adversários da medida ao palácio e expunha-lhes, paternalmente, os projetos e finalidades do regime alimentar da cidade que estava governando. Prosseguiram as reuniões, providências e atividades, durante trinta anos consecutivos, sem desaminar. Após 21 anos de estudos e conversações fraternas aderiu o Ministério da Elevação. Somente depois de muitos estudos e muito diálogo fraterno o governador tomou medidas mais enérgicas, devido a recalcitrância e impertinencia desses espíritos, tendo suportado tudo isso amorosamente por 30 anos consecutivos. (5) Se nós tivéssemos 10% da elevação espiritual do governador de Nosso Lar, debateríamos amorosamente as divergências de entendimento que surgem em nossas casas espíritas por pelo menos 3 anos consecutivos. Quem sabe um dia, quando evoluirmos, chegaremos lá.
Na primeira comunidade cristã, a Casa do Caminho, Pedro, Paulo, Tiago e os demais seguidores do Cristo, também tiveram divergências de entendimento sobre as leis de Deus. Na obra “Paulo e Estevão” de Emmanuel, é relatado em seu capítulo cinco “Lutas pelo Evangelho”(6), o debate sobre a necessidade ou não da circuncisão dos gentios para se converterem ao Evangelho de Jesus. Após vários dias de reunião em assembléia, com conversações fraternas, discursos e ponderações, chegou-se á uma conclusão sobre o tema. Todos atuaram de forma fraterna, solidária, respeitando o direito de se expressar de cada um, e ouviram e ponderaram as idéias expostas. Porque Pedro, que era considerado o lider dos apóstulos não baixou um decreto, uma ordem, uma determinação sobre o tema, a ser seguida por todos? Porque não decidiu sozinho? Porque sabia que o verdadeiro amor cristão está alicerçado na humildade e não na hierarquia. Porque respeitava profundamente e intensamente cada um dos irmãos e irmãs da comunidade cristã, independente de possuirem entendimentos divergentes sobre o Evangelho. Porque conhecia, respeitava e praticava com fervor o ensinamento do Divino Mestre Jesus “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (7)
Em contrapartida, vamos relembrar um pouco algumas citações das obras espíritas, sobre a organização social dos grupos de espíritos inferiores, umbralinos, trevosos, obsessores, etc..., que se vinculam pelo comunhão no egoísmo, orgulho, vaidade, soberba, altivez, pretensão, revolta e toda ampla variedade de pensamentos e atos contrários ás Lei de Deus.
No livro “Libertação” de André Luiz em seu Capítulo - 01 o Ministro Flácus ensinando sobre essas organizações de desencarnados esclarece:
“Frustrados em suas aspirações de vaidoso do­mínio no domicílio celestial, homens e mulheres de todos os climas e de todas as civilizações, depois da morte, esbarram nessa região em que se prolon­gam as atividades terrenas e elegem o instinto de soberania sobre a Terra por única felicidade digna do impulso de conquistar. Rebelados filhos da Providência, tentam desacreditar a grandeza divina, estimulando o poder autocrático da inteligência in­submissa e orgulhosa e buscam preservar os círcu­los terrestres para a dilatação indefinida do ódio e da revolta, da vaidade e da criminalidade, como se o Planeta, em sua expressão inferior, lhes fôsse paraíso único, ainda não integralmente submetido a seus caprichos, em vista da permanente discórdia reinante entre eles mesmos.É que, confinados ao berço escabroso da ignorância em que o medo e a maldade, com inquietudes e perseguições recíprocas, lhes consomem as forças e lhes inutilizam o tempo, não se apercebem da situação dolorosa em que se acham.
Fora do amor verdadeiro, toda união é tempo­rária e a guerra será sempre o estado natural daqueles que perseveram na posição de indisciplina.
Um reino espiritual, dividido e atormentado, cerca a experiência humana, em todas as direções, intentando dilatar o domínio permanente da tirania e da força.....”.(8)
Na sequência, em seu Capítulo 02 do mesmo livro, o Instrutor Gúbio tece mais comentários sobre essas organizações.
“....O obje­tivo essencial de tais exércitos sombrios é a con­servação do primitivismo mental da criatura hu­mana, a fim de que o Planeta permaneça, tanto quanto possível, sob seu jugo tirânico...”
“.....O Instrutor Gúbio, fitando em nós o olhar percuciente e calmo, ponderou:
— Entenderam, agora, como é compreensível a opção de certos espíritos pela casa escura do crime, depois do túmulo, qual ocorre a milhões de entidades encarnadas que, em plena harmonia com a natureza terrestre, estimam viver no domicílio da enfermidade? Atitudes mentais enraizadas não se modificam facilmente. O rei que governa milhares, o condutor que se acostumou a traçar fér­reas diretrizes, o homem que se habituou a dobrar caracteres alheios, quando não dispõem de prin­cípios santificantes, no terreno idealístico, para se alimentarem intimamente na tarefa a que se con­sagram, não se transformam em servidores humil­des de um momento para outro, só porque se desfizeram da carga de células materiais....”(8)
No livro “Os Mensageiros” seu Capítulo 20 quando André Luiz está visitando as defesas das muralhas de Nosso Lar, o administrador Alfredo esclarece:
“ ... As organizações de nossos irmãos consagrados ao mal são vastíssimas. Não admitam a hipótese de serem todos eles, ignorantes ou inconscientes. A maioria se constitui de perversos e criminosos. São entidades verdadeiramente diabólicas. Não tenham disso qualquer dúvida....”
“... Querem dominar antes de se dominarem, exigem antes de dar e entram em perene conflito com o espírito divino da lei. Estabelecido o duelo entre a fantasia deles e a verdade do Pai, resistem ás corrigendas do Senhor e transformam-se, esses desventurados, em verdadeiros gênios da sombra, até que, um dia, se decidam a novos rumos.
Intrigado com as profundas observações, perguntei:
— Mas, como explicar as bases de semelhante atitude? Na Terra, compreendemos certos enganos, mas aqui...
O generoso interlocutor não me deixou terminar e prosseguiu:
— Na Crosta, nossos irmãos menos felizes lutam pela dominação econômica, pelas paixões desordenadas, pela hegemonia de falsos princípios. Nestas zonas imediatas à mente terrestre, temos tudo isso em identidade de condições. Entre as entidades perversas e ignorantes, há cooperativas para o mal, sistemas econômicos de natureza feudalista, baixa exploração de certas forças da Natureza, vaidades tirânicas, difusão de mentiras, escravização dos que se enfraquecem pela invigilância, doloroso cativeiro dos Espíritos falidos e imprevidentes, paixões talvez mais desordenadas que as da Terra, inquietações sentimentais, terríveis desequilíbrios da mente, angustiosos desvios do sentimento. Em todo o lugar, meu amigo, as quedas espirituais, perante o Senhor, são sempre as mesmas, embora variem de intensidade e
coloração.(9)
No livro “Aconteceu na Casa Espírita” Nora, a autora espiritual nos relata na psicografia de Emanuel Cristiano, em seu Capítulo 05 a técnica de Júlio César, o líder dos obsessores. Ele oferece favores e cargos aos obsessores, e estimula a vaidade da médium para que esta acreditasse em sua superioridade perante os demais médiuns da casa espírita.
“.... Júlio Cesar acompanhou o trabalho de Maria Souza (médium) durante várias semanas, fazendo com que casos semelhantes a estes fossem repetidos(casos de cura); para isso oferecia cargos, favores e retribuições aos obsessores, provocando nela a certeza de que finalmente havia desenvolvido a faculdade de cura...” (10)
Mais adiante no Capítulo - 08 “Cedendo á Tentação” após a infiltração dos obsessores no pensamento dos trabalhadores da casa espírita. É relatada pelo espírito Nora a característica da perturbação que se instalou: 
“ .... Não faltavam, porém, os invigilantes perturbando o serviço. Sequiosos por cargos, disputavam a organização das entrevistas, quais representantes do orgulho em uma empresa do mundo. Esqueceram que os candidatos a comandar o trabalho do bem devem, primeiramente, se esforçar por comandarem a si mesmos....” (11)
No livro “Os Mensageiros” seu Capítulo 26, quando André Luiz está visitando um dos Postos de Socorro de Campo de Paz, comenta sobre a organização:
“ .... Notei que o trabalho no Posto se desenvolvia em ambiente da mais bela camaradagem não obstante o respeito natural as noções de hierarquia...”(12)
Ismália recebia senhoras em atitude maternal. Alfredo recebia á todos com espírito de solidariedade e imenso afeto, sem o menor gesto de impaciência ou irritação. O clima era de concórdia. Tudo respirava ordem e compreensão, bondade e harmonia. A atitude paterna do administrador do Posto de Socorro, expressa em energia e amizade, organização e entendimento, atraía André Luiz com força. (12)
Fica claro que a hierarquia estabelecida refere-se ás especialidades das funções de cada colaborador do posto de serviços, hierarquia apenas com foco organizacional, para a harmonia do desempenho de um serviço coletivo. O ambiente é caracterizado pela mais bela camaradagem. O ideal predominante é o de servir ao Mestre Jesus. Não há espaço para disputas de cargos e atuação política. A conquista do poder e o domínio sobre os outros não faz parte dos valores desses benfeitores. 
O nosso querido Francisco Cândido Xavier, o maior exemplo de atuação de um verdadeiro espírita, serviu durante diversos anos em um centro em Uberaba. Após quatorze anos de atividade a casa espírita havia crescido, ocupando quase um quarteirão. Não havia mais espaço para o servidor humilde de Jesus. Chico se afastou e fundou uma nova casa espírita. Com estrutura menor, com menos participantes, mas com o amor e a humildade que caracterizam os verdadeiros seguidores do Mestre Divino. De vez em quando ele comentava:
“ .... Em casa que muito cresce o amor desaparece......” (13)
O que será que Chico constatou? Será que a casa espírita havia perdido a pureza e simplicidade do início quando era um pequeno núcleo de fraternidade e solidariedade? Será que o tamanho e a estrutura da mesma induzia os colaboradores a posturas menos humildes, com hierarquia, cargos, disputas de poder e vaidades pessoais ?
O Professor Herculano Pires, que nas palavras de Emmanuel, é “o metro que melhor mediu Kardec”, em seu Livro “O Centro Espírita”, cap. III faz a seguinte ponderação sobre a organização de uma casa espírita:
“ ....Mas, acima de tudo e antes de tudo: humildade. Porque Espiritismo sem humildade é água poluída, cheia dos germes da pretensão, da vaidade, do orgulho que atraem os espíritos inferiores. Um presidente de Centro não é o Presidente da República e um doutrinador não é um sábio. Pelo contrário, são criaturas necessitadas que estão aprendendo a arte difícil de servir e não a de baixar decretos, dar ordens e humilhar os outros em público. Sem humildade que gera e sustenta o amor ao próximo, nem o estudo pode dar frutos....” (14)
Como sabemos, somos todos médiuns, variando apena o tipo de mediunidade que cada um possui e o grau de sensibilidade de cada médium, em especial aqueles que desempenham alguma tarefa dentro de uma casa espírita. Relembrando um relevante ensinamento de Emmanuel, no longuinguo ano de 1.937, em sua obra entitulada “Emmanuel”, no capítulo XI - “Mensagens aos Médiuns”, na qual ele apresenta diversas ponderações aos médiuns, para relembrar sobre o passado espiritual destes.
“ ....O seu pretérito, muitas vezes, se encontra enodoado de graves deslizes e de erros clamorosos. Quase sempre, são Espíritos que tombaram dos cumes sociais, pelos abusos do poder, da autoridade, da fortuna e da inteligência, e que regressam ao orbe terráqueo para se sacrificarem em favor do grande número de almas que desviaram das sendas luminosas da fé, da caridade e da virtude. São almas arrependidas que procuram arrebanhar todas as felicidades que perderam, reorganizando , com sacrifícios, tudo quanto esfacelaram nos seus instantes de criminosas arbitrariedades e de criminosa insânia...” (15) 
Reforçando este sábio conceito ensinado por Emmanuel temos no livro “Aconteceu na Casa Espírita” a mesma afirmação. Castro, o presidente do Centro Espírita sob ataque obsessivo, recebendo instruções do dirigente espiritual, que lhe relembra a necessidade de humildade e sacrifício em sua atuação, é informado que também já participou, no passado das “hostes infernais” 
“ ....E se queres saber, tu mesmo já fizestes parte das “hostes infernais” ! Quem de nós, peregrinando pelos caminhos da ignorância, não contribuímos para entravar o progresso?”(16)
Mais adiante, na mesma obra literária, após o arrependimento de seus atos, Júlio Cesar, o obsessor chefe, é conduzido á nova reencarnação em família espírita, para reparar o mal praticado. Com aproximadamente 50 anos de idade física, portador do dom da mediunidade, assumirá a presidência da Casa Espírita que tanto ele perseguiu, para tentar reparar o mal praticado. (17)
Vale para todos nós, com raríssimas exceções, um importante alerta. Quando faltar a humildade em nossa atuação, lembremo-nos de que não somos seres angélicos repletos de virtudes que assumimos, nesta encarnação, cargos importantes, devido á nossa elevação espiritual. Somos sim, seres milenares envolvidos, em diversas encarnações, em grandes faltas perante as Leis Divinas, aos quais, pela bondade infinita de Deus, foram concedidos oportunidades de resgate e expiação dessas faltas, atuando em funções transitórias de caráter religioso nas casas espíritas. 
Por tudo que foi exposto acima, por todas as ponderações de espíritos bondosos nas citações da literatura espírita, neste artigo, creio que é de grande utilidade para todos nós, repensarmos o centro espírita, e as nossas posturas e atuações nessas instituições.
Antes de considerarmos a casa espírita como uma empresa, um clube, uma agremiação, uma ONG, ou uma associação de pessoas com ideal religioso, antes de estabelecermos hierarquias e estruturas de poder, disciplinas e obediências cegas, idolatria de médiuns e dirigentes, lembremo-nos que um centro espírita é, acima de tudo, um núcleo de amor, fraternidade e solidariedade. É um núcleo de consolo para almas adoentadas como as nossas, que buscam o reequilíbrio através do exemplo e da vivência do amor cristão verdadeiro. É um núcleo de estudos da doutrina espírita, no qual podem e devem participar pessoas que desejam realmente, do fundo do coração, conhecer as Leis de Deus. Livres de dogmatismos, preconceitos, tradições, secularização, sincretismos e misticismos. Pessoas que desejam estudar com o divino direito de questionar constantemente, analisando á luz da razão e do bom senso, deduzindo livremente os preceitos, debatendo idéias, e não aceitando e concordando cegamente.
Enquanto o amor, a fraternidade, a solidariedade nas relações, não constituirem a essência primordial da atuação de todos nós, acima de qualquer hierarquia na casa espírita, enquanto não dominarmos nossas inclinações inferiores, que nos conduzem ás posturas de orgulho, vaidade e prepotência, não estaremos servindo adequadamente ao Mestre Jesus, e consequentemente estaremos falhando, mais uma vez, nessas provações de caráter religioso. 
A quem muito foi dado muito será pedido, nos ensinou o Divino Mestre. Naturalmente, recebemos todo o ensino e treinamento necessários, antes de encarnar, para atuarmos com amor e fidelidade aos preceitos do Cristo. Vale lembrar, outro sábio ensinamento de Emmanuel á todos nós que abraçamos a Doutrina Espírita:
“...Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liber­ta, vigiando-lhe a pureza e simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento.....
....Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo.
E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoa­mento moral em todos os mundos.
Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua res­ponsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas.”(18)
Victor Manoel Ventura Seco é estudante da Doutrina Espírita há aproximadamente duas décadas, tendo freqüentado diversas casas espíritas na cidade de São Paulo. É colaborador do site www.espiritismoemdebate.com.br
(1) S. MATEUS, capítulo XX, vv. 20 a 28.) ESE Cap. 07 ítem 4. Edição FEB – 115ª Edição;
(2) e (3) ESE Cap. 07 ítem 6. - Edição FEB – 115ª Edição;
(4) Livro “Seara dos Médiuns” – pag. 103 - “Mediunidade e Previlégios” - FEB – 6ª. Edição;
(5) Livro “Nosso Lar” – pgs. 54 á 58 – André Luiz – FEB – 45ª Edição;
(6) Livro “Paulo e Estevão” – Cap. 5 – Emmanuel – FEB – 45ª Edição;
(7) Evangelho de João 13:35 – citado no Livro Fonte Viva – Lição 15, pag. 43 – Emmanuel –FEB - 20ª. Edição;
(8) Livro “Libertação” – Cap. 01 e 02 – André Luiz – pg.19,31 14ª Edição– FEB;
(9) Livro “Os Mensageiros” – Cap. 20 - pgs. 109 e 110 – André Luiz – FEB – 21 ª Edição;
(10) Livro “Aconteceu na Casa Espírita” – Cap. 05 “Estimulando a Vaidade” – pg. 47 – Editora do Centro Espírita Allan Kardec – 2ª. Edição
(11) Livro “Aconteceu na Casa Espírita” – Cap. 08 “Cedendo a Tentação” – pg. 80 – Editora
do Centro Espírita Allan Kardec – 2ª. Edição
(12) Livro “Os Mensageiros” – Cap. 26 - pgs. 109 e 110 – André Luiz – FEB – 21 ª Edição;
(13) Livro “As vidas de Chico Xavier” de Marcel Souto Maior– Cap. “A vida desapropriada” – pg. 208– Editora Planeta do Brasil Ltda. - 2ª. Edição
(14) Livro “O Centro Espírita” - Prof. J. Herculano Pires – Cap.III “O Centro e a Comunidade” – pg. 26 – Editora Paidéia Ltda. - 2ª. Edição
(15) Livro “Emmanuel” – Emmanuel - Cap XI – pag. 66 -“ Quem são os médiuns em sua generalidade” FEB - 14ª. Edição;
(16) Livro “Aconteceu na Casa Espírita” – Cap. 09 “Entre Mensagens e Críticas” – pg. 89 – Editora do Centro Espírita Allan Kardec – 2ª. Edição
(17) Livro “Aconteceu na Casa Espírita” – Cap. 16 “Socorrendo o Vencido” – pg. 164 – Editora do Centro Espírita Allan Kardec – 2ª. Edição
(18) Livro “Religião dos Espíritos” – pg. 227 e 229 – Edição FEB.

Victor Manoel Ventura Seco é estudante da Doutrina Espírita há aproximadamente duas décadas, tendo freqüentado diversas casas espíritas na cidade de São Paulo. É colaborador do site www.espiritismoemdebate.com.br
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FIDELIDADE DOUTRINÁRIA


                                                                                                                                
Há pessoas que estão sempre a buscar atalhos, soluções prontas, para agirem sem o esforço da análise, do exame cuidadoso, conforme recomenda o Apóstolo Paulo: “Examinai tudo; retende o bem.” (I Ts, 5: 21). Essas pessoas, por certo, ainda não entenderam a inspirada assertiva do Codificador, ao grafar na folha-de-rosto do primeiro livro eminentemente religioso da Doutrina,O Evangelho segundo o Espiritismo: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.” O esforço para a construção dessa fé inabalável é penoso para aqueles que desejam receber tudo pronto. Os que assim se posicionam têm muitas dúvidas no terreno da fidelidade doutrinária. Seria do seu agrado o estabelecimento de um index para orientar o que deveriam ler, de um manual de procedimentos para as atividades desenvolvidas nos centros espíritas e, também, de uma cartilha de orientação para o seu próprio procedimento em sociedade.
Em relação à fidelidade doutrinária, há posições as mais variadas assumidas pelas pessoas. Há aquelas que desejariam houvesse uma lista de obras “condenadas”, o que lhes facilitaria a escolha para a leitura de informações seguras, sem terem que “esquentar a cabeça”. No outro extremo, outras há que reagem negativamente a qualquer tipo de avaliação ou de juízo formulado sobre uma publicação, tachando tal ato como estabelecimento de um index.
Nesse contexto, deve ser lembrado que uma das características marcantes do Espiritismo é exatamente a liberdade que confere aos seus profitentes. Liberdade aprendida com Jesus, que nunca constrangeu ninguém a fazer ou deixar de fazer algo, simplesmente porque lhe fora ordenado. O Mestre sempre buscava levar o ouvinte a entender os seus ensinamentos, raciocinando sobre eles, o que obtinha através dos diálogos que estabelecia.
       
Muitas passagens discutíveis do Novo Testamento, muitas palavras e frases atribuídas a Jesus, lá estão porque o Alto o permitiu. Apesar de muitos cortes, acréscimos e adaptações, o essencial foi conservado intacto. O que se tornou objeto de discussão serve para aprendermos a raciocinar em termos de fé e exercitarmos o bom-senso. Se Jesus tivesse vindo para trazer-nos fórmulas acabadas de salvação – tão a gosto dos simplistas – não teria sido carpinteiro, mas sim canteiro, pois trabalhando com pedras teria oportunidade de deixar seus ensinamentos insculpidos em lajes, como verdadeiras “receitas” de salvação, a serem seguidas ipsis verbis pelos séculos afora. Esse desejo do Mestre, de conduzir seus discípulos ao estudo e à reflexão, fica muito claro quando recomenda: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo, 8: 32).
       
Dentro dessa perspectiva, como encontrar o ponto de equilíbrio entre os que querem um index e um manual de procedimentos, e aqueles que advogam liberdade ampla, total e irrestrita? Avaliar se uma obra ou uma prática está em consonância com os princípios doutrinários é tarefa para quem conhece realmente a Doutrina. Daí, a necessidade do estudo, da reflexão, da análise serena e desapaixonada, a fim de que se chegue à conclusão do que está de acordo e do que está em confronto com as verdades que o Espiritismo esposa.
       
A preservação da fidelidade doutrinária no que diz respeito às práticas desenvolvidas numa entidade espírita é mais fácil, pois ninguém usaria velas, bebidas, fumaça, roupas especiais, imagens, rituais, etc. Entretanto, quando se trata do uso da palavra, seja oralmente, seja por escrito, a tarefa de verificação se torna mais difícil. Mais difícil porque esbarra, quase sempre, no personalismo camuflado numa capa de inovação, renovação, atualização, etc.
       
A mediunidade tem sido veículo para a divulgação de muitas “novidades” que deveriam ter merecido acurado exame antes de se terem transformado em folhetos e, principalmente, em livros. Infelizmente, o encantamento provocado pelo fenômeno ainda oblitera a visão de muitos, conduzindo-os a entendimentos equivocados.
       
Se houvesse mais estudo da Codificação, por certo o número de obras anti-doutrinárias existentes, tanto pela ação de médiuns quanto de leitores seria bem menor, para não dizermos nulo. Temos o exemplo maior em Kardec, que se conservou sereno e judicioso, embora a imensa emoção que deve ter sentido ao comprovar a imortalidade da alma, ao “descobrir” o Mundo Espiritual, e ao verificar o relacionamento efetivo entre encarnados e desencarnados.  É oportuno seja lembrada a sempre atual advertência de Erasto, que Kardec inseriu em O Livro dos Médiuns: “Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.” (item 230).
       
A necessidade do uso do bom-senso no campo da mediunidade é evidenciada desde os tempos apostólicos, conforme se aprende com o Apóstolo Paulo  – seguramente a maior autoridade em assuntos mediúnicos no Cristianismo nascente – que recomenda: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.” (I Co, 14: 29). O mesmo cuidado é recomendado por João: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo”. (I Jo, 4: 1).
       
Essas recomendações continuam atualíssimas, diante do momento que vivemos, pois atravessamos um período que nos requer muita atenção relativamente à fidelidade doutrinária, principalmente no campo mediúnico voltado à produção de livros. Note-se que o vocábulo produção é intencionalmente usado aqui para substituir publicação, pela verdadeira avalancha de obras mediúnicas que invadem as prateleiras das livrarias.
       
Há uma ânsia desenfreada de se publicar tudo o que médiuns invigilantes produzem, sequiosos de verem seus nomes em capas de livros. Há editoras que descobriram um verdadeiro filão de ouro no meio espírita. Muitos dos que adquirem livros pensando estarem ajudando instituições de amparo a necessitados  não são informados do que resta no final, depois de deduzidas as despesas e os ganhos das editoras... Se há grande profissionalismo editorial, felizmente, o profissionalismo mediúnico, no que se refere à literatura espírita ficou restrito a conhecida família, que não mais se pode dizer espírita, mas sim praticante de mediunidade apenas.
       
Os adversários do Espiritismo de há muito desistiram de combatê-lo através de ataques exteriores. Agora, eles se imiscuem no nosso meio, onde quase que imperceptivelmente, valendo-se da invigilância de muitos, buscam lançar o descrédito através de mensagens fantasiosas, quando não ridículas. Por isso, no quadro atual, mais que nunca, os médiuns devem pôr em prática o “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação (...)”. (Mt, 26: 41).                                    
       
Diante do exposto, fica claro que não se pode nem estabelecer um manual de procedimentos, nem elaborar um index, objetivando a preservação da fidelidade doutrinária. Mas, então, como proceder diante dessa quantidade imensa de obras inovadoras e de posicionamentos inusitados, cujas “revelações” e “modernizações” vão desde o simplesmente discutível ao claramente anti-doutrinário?         
       
Em atitudes discretas, equilibradas, ao amparo da oração sincera, cada espírita consciente deve constituir-se em guardião fiel dos princípios doutrinários, o que conseguirá através do estudo, da reflexão, do uso do bom-senso.
                                      
José Passini
Juiz de Fora                
passinijose@yahoo.com.br

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Que tipo de espírita você é?


Por Christina Albuquerque

Defrontamo-nos comumente com a pergunta: “Que tipo de espírita você é”?

Para aqueles que leram o prefácio do Livro dos Espíritos, esta pergunta soa estranhamente.

Allan Kardec explica com clareza como poderíamos nos comportar perante esta pergunta.

“Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras”.

Espiritualismo: é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria é espiritualista.

Espiritismo: tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível.

Allan Kardec volta a enfatizar que para uma língua perfeita cada idéia deveria ser expressa por um termo próprio, o que evitaria muitas discussões.

Hoje a pergunta acima é feita rotineiramente e ouvimos variadas respostas..

Sou “espírita kardecista”; sou “espírita de mesa branca” e outros termos.

Pela codificação realizada por Kardec , este nos mostra a beleza do trabalho com os Espíritos no sentido de não atribuir adjetivos a palavras novas que deveriam  manter somente um sentido, uma definição.

A sociedade é dinâmica. Vemos modismos que levam a população a incorporar novos significados às palavras já existentes.

Hoje deparamo-nos com algumas crenças afro-brasileiras onde há comunicações com Espíritos e que se denominam também de espíritas.

Como devemos nos colocar diante desta situação?

A resposta definitiva cabe a cada um, mas as sociedades espíritas poderiam contribuir mais enfaticamente e positivamente, realçando as palavras de Allan Kardec, quando o termo fosse usado de uma maneira dúbia.

Jesus nos disse que devemos fazer a vontade de Deus, cumprindo suas leis divinas.Através do Amor, da paciência e do estudo científico alcançaremos os resultados almejados.

Jesus foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral, a cristã, que há de renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos. O Espiritismo é a alavanca de que Deus se utiliza para fazer com que a humanidade avance.

Todos os estudiosos dos Livros da Codificação Espírita complementam os ensinamentos morais com as bases científicas. Portanto somos espíritas orientados pelos princípios da moral cristã.

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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

SEDE DE PODER


Por Humberto Alves Mendes

Uma das piores atitudes do comportamento humano é a exacerbada ânsia de poder de certas pessoas. Mal sabem elas que o poder corrompe e o amplo poder, corrompe amplamente (entenda-se como corrupção algo muito além dos chamados mensalões e assemelhados). Infelizmente isso é muito comum no trabalho, na vida profissional. Tudo começa assim: de repente, de onde menos se espera, aparece na empresa uma pessoa que através de ações bajulatórias e de uma subserviência inaceitável num ser humano digno, consegue galgar posições de destaque e poder. E o pior é que, quando as pessoas que ocupam cargos de comando aceitam e gostam desse tipo de gente, a coisa se torna muito mais grave, primeiro porque encontram ali, naquele elemento, um aliado do mesmo nível e, segundo, porque para subir na vida, esse aliado não hesita em passar por cima de quem quer que lhe possa fazer sombra e representar algum perigo para os seus objetivos escusos.

Pessoas desse quilate nada acrescentam para o desenvolvimento da humanidade, para o seu próprio e para o das empresas, muito pelo contrario, é pelas suas mãos e pela sua falta de caráter, que muitas empresas acabam enveredando pelos caminhos mais tortuosos tanto no aspecto pessoal como no aspecto profissional e aí quando alguém resolve tentar reverter o quadro, é muito tarde.

No Espiritismo também.

Se existe uma coisa que é muito preocupante, é saber através de amigos dirigentes e trabalhadores de Centros Espíritos, de casos semelhantes dentro de nossa própria comunidade.  Tem pessoas que na ânsia de aparecer, pleiteiam cargos para os quais não estão minimamente preparadas, se propõem realizar mil e uma atividades para as quais também não têm a menor embocadura, não se preocupam em preparar-se porque acham que já sabem tudo e no fim, o que se vê, quando essas pessoas não abandonam o Centro e a própria doutrina, são aqueles dirigentes injustos, ineficientes e incompetentes. E tem mais: por mais absurdo que possa parecer, acabam se transformando em “donos de centro” em “médiuns diferenciados e especiais” e diretores medíocres, isso quando não se transformam em “mentores da casa”, após a desencarnação.

Não podemos nos esquecer de, sempre que pudermos, dar uma lida no nosso Evangelho segundo o Espiritismo; por exemplo, no capitulo IX item 9 que trata da cólera, o Espírito Hahnemann, nos lembra que a humildade é a maior virtude que um ser humano pode ter, nos dá uma verdadeira lição de como enfrentar a nossa cólera e de compreensão para o mal que o orgulho e a ânsia de poder a qualquer custo podem nos acarretar.
Precisamos ler mais e refletir sobre os textos das obras da codificação.
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Fantasias e realidade no Centro Espírita


Por Éder Fávaro

Abrindo o livro dos Médiuns, deparamos logo de início, na sua introdução, com a afirmativa de Kardec sobre as dificuldades e desilusões encontradas na prática espírita, que decorrem da ignorância dos princípios doutrinários. Mais adiante, ele continua fazendo observações importantes, tais como: "A prática espírita é difícil, apresentando escolhos que somente um estudo sério e completo pode prevenir". Experiências feitas com leviandade, sem conhecimento de causa, provocam péssima impressão nos principiantes ou pessoas mal preparadas, tendo o inconveniente de dar uma idéia bastante falsa do mundo dos espíritos, favorecendo a zombaria e dando motivos a críticas quase sempre bem fundadas. É por isso que os incrédulos saem dessas reuniões raramente convencidos e pouco dispostos a reconhecerem os aspectos sérios do Espiritismo".
É evidente que Kardec não falava só para o seu tempo. Prevendo o progresso do Espiritismo, e o aumento crescente de interesse com relação a ele, alertava sobre a responsabilidade dos dirigentes e médiuns das reuniões espíritas de todos os tempos quanto aos compromissos da preservação e defesa da pureza doutrinária.
Pelo que temos observado em visitas a um número considerável de Centros e através de informações idôneas, a preocupação de Kardec não era sem propósito.
Os desvirtuamentos, as invenções, as infiltrações de idéias e práticas antidoutrinárias são uma realidade em muitas "Casas Espíritas" do nosso Estado, quiçá do Brasil.
Dentre as novidades que nada têm a ver com o Centro Espírita, podemos destacar, muito embora respeitáveis em suas respectivas áreas, a Radiestesia, a Cromoterapia, a TVP e outras, que não devem ser consideradas atividades do Centro.
Há ainda práticas e orientações fantasiosas que não podem e nem devem ser incluídas como propostas da Doutrina Espírita. Elas são frutos da falta de conhecimento, da ignorância e até da irresponsabilidade de dirigentes e colaboradores, muitas vezes mal intencionados, que não visam outra coisa se não o poder, a projeção, o destaque pessoal, colocando seus interesses particulares acima da Causa.
É verdade que existem muitos Centros Espíritas que desenvolvem suas atividades fundamentadas nos norteamentos Kardecistas, com estudos sérios, atendimento fraterno, orientação doutrinária segura, critérios corretos e aplicação da ética espírita em todos os sentidos, mas há inúmeros que se utilizam da denominação "Espírita", estando, no entanto, totalmente distanciados dos postulados da doutrina.
Essa é uma realidade, dela temos que ter conhecimento. Por exemplo: há "Centros Espíritas" que benzem objetos, roupas e fotografias, que se dedicam em pesquisas sobre vidas passadas com objetivos escusos, que fazem revelações sensacionalistas de vidências, provocando desajustes em pessoas psicologicamente despreparadas, que fazem das reuniões mediúnicas um espetáculo, e ainda outros que são dirigidos só por "Missionários", sem contar com outra categoria de "Centros" que caracterizam todos que os procuram como doentes e obsedados. Não bastassem esses, há os que até recebem comunicações de espíritos vindo de outras galáxias, que indicam o uso do defumador para a solução dos problemas humanos, que introduzem hinos em suas reuniões, que realizam batizados e casamentos, e dão às suas reuniões um caráter eminentemente ritualístico.
Esses "Centros", em termos de orientação, acabam extrapolando e entrando no terreno movediço do "Achismo". Respondem sobre tudo sem o mínimo embasamento doutrinário, bom senso e critério. Os seus dirigentes e médiuns, via de regra, transferem a responsabilidade de suas opiniões aos espíritos, afirmando não serem eles os autores das idéias e sim os mentores. São pródigos nos aconselhamentos e orientações estapafúrdias e pueris, que conduzem as criaturas a uma visão errônea a respeito dos fundamentos e ensinamentos do Espiritismo, provocando com isso, em alguns casos, processos de perturbação e obsessão.
É o ressurgimento da mágica, do mistério, da fantasia, do maravilhoso e do sobrenatural, contrastando diametralmente com a visão espírita a respeito dos fatos. Kardec ainda no Livro dos Médiuns, cap. II, observa que "o Espiritismo não aceita todos os fatos considerados maravilhosos. Longe disso, demonstra a impossibilidade de muitos deles e o ridículo de algumas crenças que constituem, propriamente falando, a superstição".
Até no campo da administração do Centro Espírita encontramos casos absurdos em que os espíritos, através de "médiuns confiáveis do grupo", elaboram chapas de eleição para a direção da entidade, atestando a incompetência dos encarnados para dirigirem a obra.
Para reforçar o nosso enfoque, passamos a relatar alguns casos, dentre outros tantos que tivemos a oportunidade de vivenciar ou conhecer. Retratam o triste quadro do mediunismo introduzido como sendo prática mediúnica à luz da metodologia espírita. Na realidade, são verdadeiros focos de mistificações que só retardam o progresso e o crescimento espiritual de seus participantes - médiuns, dirigentes e assistentes:
Um médium que conhecemos trabalhava numa Casa Espírita, dedicando algumas horas de trabalho em reunião de desobsessão. Premido pelas circunstâncias, necessitou reduzir a sua atividade doutrinária no grupo. Recebeu, por isso, advertência do dirigente do trabalho, de que estava sendo envolvido por atuação dos espíritos das trevas, tornando-se, assim, candidato a uma grave obsessão.
Será essa a atitude de espíritos responsáveis que dirigem reuniões sérias?
O presidente de uma Casa Espírita, onde fomos recebido, afirmou certa feita, que o seu grupo tinha ligação com a Espiritualidade superior através de um canal de luz, que descia das alturas e vinha até o meio da sala do "seu" Centro, por onde desciam e subiam espíritos superiores, achando que esse era o único canal de ligação entre o plano espiritual e a terra.
Onde está a lógica e o bom senso?
Temos notícia de um Centro que tem um estatuto que elegeu o seu presidente vitaliciamente, enquanto encarnado, e "mentor" do Centro após o seu desencarne. Tudo isso por inspiração do Dr. Bezerra de Menezes.
Pasmem, senhores! Envolveram no esquema, até o nome desse respeitável espírito.
Depois de realizar palestra numa Casa Espírita, falando sobre "O que não é Espiritismo", fomos convidados após a exposição, para assistir à parte prática da noite. Havia vários médiuns na mesa.
Algumas comunicações repetitivas. Ao final, o Presidente do Centro, que também era dirigente do trabalho e "médium de cabeceira da mesa", recebendo o "mentor", disse que a reunião tinha sido muito bonita, mas que ele não concordava com muita coisa que a doutrina ensinava, acrescentando que ali somente as suas orientações eram válidas. Segundo o citado "mentor", Kardec tem muita coisa a aprender.
Outra coisa aconteceu num Centro Espírita da capital. Sala super-lotada. Pessoas com senhas numeradas na mão para receber o passe. A mesa repleta de papeletas e fotografias de todos os tamanhos. Preparação do ambiente. Prece recitada. Em seguida, a entrada de uma médium com postura robotizada, vestida toda de branco, roupa estilo camisolão, cantando hinos sacros usados nas cerimônias ritualísticas de conhecida religião. Mas a coisa não parou por aí. À medida em que a palestra se desenrolava, a referida senhora saía de trás de uma cortina que separava a sala de passe do salão, e em voz alta chamava pelo número o candidato ao passe, que não retornava ao salão de reunião pública após ter sido atendido, esvaziando-se, paulatinamente, o local.
Tudo muito estranho e preocupante para mim. Diante disso tudo, vejamos o que tem a nos dizer o Prof. José Herculano Pires, no livro de sua autoria, denominado "O Centro Espírita":
"Os dirigentes de Centros precisam tomar conhecimento desses absurdos e lutar contra eles, porque essas invencionices ridículas atrasam o desenvolvimento da Doutrina e afastam dos Centros as pessoas que sabem pensar. Que os dirigentes, por mais modestos que sejam, não se esqueçam da bússola que lhes permitirá navegar com segurança nas águas tumultuosas: a Codificação de Allan Kardec. Kardec é a base e a cúpula da Doutrina, com apoio que nunca lhe faltou do Espírito da Verdade. Se não queremos novidades é porque os novidadeiros somente se apóiam em suas pretensões individuais".
Os dirigentes espíritas precisam tomar conhecimento de que não se pode misturar uma doutrina científica e filosófica como é o Espiritismo com práticas que não se coadunam com ela. Não se trata de um repúdio, mas de uma questão de método e cultura.
O Centro Espírita bem dirigido por pessoas sensatas e estudiosas é uma concha acústica em que ressoam as vozes e os pensamentos dos Espíritos e dos homens, no diálogo dos mundos, pois nele se encontram o mundo espiritual e o mundo terreno, nas possibilidades abertas pelos dons mediúnicos de que todos dispomos.
Os que deturpam a finalidade superior do Centro Espírita, sejam dirigentes ou freqüentadores, só interessados em vantagens imediatas, perdem a oportunidade de se elevarem a uma visão superior do mundo, do homem e da vida. Se cada freqüentador do Centro Espírita quiser ajudá-lo na sua missão superior de preparar os homens para um mundo melhor, a dinâmica do Centro intensificar-se-á para o bem de todos.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O Dirigente...


Havia num Centro Espírita um dirigente, que todos os dias lá estava a fazer palestras.

Pessoa culta, inteligente, era admirada por todos pelas suas palavras e pelo entendimento da doutrina espírita.

O interessante é que, enquanto fazia as suas palestras, reparava num velhinho sentado no fundo da sala, nas últimas cadeiras.

O velhinho estava sempre lá, todas as vezes que ele fazia a sua palestra lá estava o velhinho, olhos miúdos, atento a tudo.

Pois bem, esse velhinho veio a desencarnar e por coincidência ou não o dirigente do centro espírita também.

Qual a surpresa, quando o dirigente do centro espírita ao chegar ao outro lado, se viu num ambiente nebuloso, sombrio e nefasto, estava no umbral…

Ficou por ali algum tempo, mas, conhecedor da doutrina, sabia que a salvação era a oração, começou então a orar e a pedir a Deus que o ajudasse… Estava aflito, desorientado, não entendia porque estava a acontecer aquilo.

Um dia, para seu espanto, vê uma luz, uma luz forte a aproximar-se dele… tão forte que o ofuscava.

Ao perceber a aproximação daquela luz, ficou radiante, alegre, feliz pois sabia que as suas preces tinham sido ouvidas.

Mais espantado ficou ao perceber que aquela luz era irradiada por aquele velhinho que ele tanta vez vira nas suas palestras, sentado ao fundo da sala.

Intrigado exclamou:

- É você?
- Você não era aquele velhinho que ficava lá no fundo do centro quieto, que não dizia nada, apenas escutava o que eu dizia…
- Como pode?
- Você está aí com toda essa exuberância divina, e eu que era até dirigente de um centro espírita, ajudei tantas pessoas, estou aqui neste estado. Porquê?

O velhinho olhou para ele, e com um sorriso que irradiava bênçãos, disse:

- Eu apenas fiz o que você dizia nas suas palestras, apenas fiz.
- E você fazia o que dizia?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Arrogância e seu males


Reflitam!!


Acima da capacidade intelectual e profissional, está a capacidade de reconhecer que nenhuma verdade é absoluta. Ter a humildade em admitir o próprio erro, mesmo que isto represente situação adversa, é digno e nos aproxima das outras pessoas. O segredo do sucesso, começa por ser querido pelas pessoas. A chance de se obter sucesso é inversamente proporcional ao número de inimigos que você cria. Ter autoconfiança, sim. Ser arrogante, JAMAIS. Não confunda arrogância com coragem, ousadia liderança ou segurança.




Os arrogantes colecionam fracassos (nem sempre financeiros), mas todos sempre são justificados e cada justificativa incabível, gera outro fracasso e o ciclo nunca é interrompido. 



O arrogante tem características facilmente notadas:



- Jamais se considera arrogante. Em sua opinião, ele apenas defende suas posições e princípios



- Quando fracassa, a culpa é dos outros ou a sorte não o acompanhou



- Cobiça o sucesso dos outros, mas é claro que não assume isso, “afinal ele é a personificação do sucesso”. E se esse sucesso pertece à alguém próximo, isso o incomoda profundamente a ponto de lhe fazer mal.



- Nunca elogia ou enaltece a conquista dos outros. Sempre encontra um defeito ou desmerece tal conquista.



- Quando "reconhece" um erro, o que é muito raro, justifica-o mentindo ou omitindo detalhes



- Exige ser ouvido, mas não dá ouvidos à ninguém



- Quando solicita opinião, é apenas um meio de autoafirmação. Seu desejo é ser aprovado, caso contrário desconsidera a opinião dada



- Humilha e destrata quem o desagrada ou tem opinião diferente da sua



- É um verdadeiro especialista em dizer frases infelizes.



- Acha que tem controle sobre tudo, inclusive sobre as pessoas



- Tem solução para os problemas alheios, mas jamais consegue resolver os seus



- A sua palavra obrigatoriamente prevalece sobre qualquer outra 



- Sempre enaltece suas supostas qualidades 



- No auge de sua falsa modéstia, diz que seu maior “defeito” é ser perfeccionista



- Critica à todos, porém desconhece o que seja autocrítica



- É egoísta, mas exige solidariedade das pessoas



- É mentiroso e acredita na própria mentira



- Não é respeitado e sim, temido



- Dificilmente agradece por um favor recebido, pois jamais reconhece que o recebeu



- Se considera o melhor amigo, o melhor conselheiro, o melhor filho, o melhor pai, o melhor marido, o melhor amante, o melhor profissional, o melhor sujeito e por isso raramente muda de atitude



- Passa a vida pensando que é querido por todos, quando na verdade é odiado por muitos



- Muitas vezes, tem uma vida infeliz ou medíocre, se achando a pessoa mais feliz do mundo



- O arrogante termina a vida se arrependendo tarde demais por tudo o que causou aos outros e à si mesmo



As vezes, agindo com a arrogância, algumas pessoas conseguem o que querem à curto prazo, mas a longo prazo perdem o que há de mais precioso na vida: a amizade, o respeito e o carinho das demais pessoas. O indivíduo "tem tudo na vida", mas não se sente feliz.



O arrogante é cercado por uma nuvem negra de problemas que afeta todos aqueles que por uma infelicidade, estão ao seu lado. Distancie-se dele !



"As pessoas de grande arrogância não possuem integridade, vacilando e mudando de opinião conforme a situação. 



Fazem guerra, matam, roubam, enganam e se justificam inventando um motivo nobre.



Agem com arrogância os que ensinam aos outros o que eles próprios desconhecem. Quem não sabe para si, não ponha escola."



O arrogante certamente considerará este texto, como sendo arrogância de quem o escreveu ou simplesmente continuará justificando seus atos e tentando mostrar qualidades onde não existe. 



Retirado do site: www.avt.com.br

ARROGÂNCIA II


O estudo do sentimento de egoísmo constitui elemento fundamental no entendimento de nossas necessidades espirituais. Significa estudar nossa própria história evolutiva. A sutil diferença entre pensar excessivamente em si e pensar em si com benevolência pode determinar a natureza de todos os sentimentos humanos. O excesso de interesse por si mesmo é um ciclo de ilusões que se repete sustentando o auto-desamor em milênios de perturbação. A benevolência é a bondade efetiva que caminha de braços dados com a edificação da paz interior.
                Na fieira do tempo o egoísmo sofreu mutações infinitas que compõem a versatilidade de toda a estrutura sentimental do Ser. O abuso desses germens de luz tem constituído entrave ao longo dos tempos. A paixão – ausência de domínio sob gerência da vontade – ensejou reflexos perniciosos, cujas raízes encontram-se no egocentrismo – o estado mental de fechamento nas nossas próprias criações.
                Nessa linha de evolução, o instinto de conservação desenvolveu a posse como sinônimo de proteção, vindo a constituir o núcleo da tormenta humana. 
                Alicerçados na necessidade apaixonada de proteção material, enlouquecemos através da posse e a conduta arrogante ensejou-nos a concretização dessa atitude de egoísmo.
                O princípio que gera a arrogância foi colocado no homem para o bem. É a ânsia de crescer e realizar-se. O impulso para progredir. O instinto de conservação que prevê a proteção, a defesa. Tais princípios são os fatores de motivação para a coragem, a ousadia, o encanto com os desafios. Graças a eles surgem os líderes, o idealismo e as grandes realizações inspiradas em visões ampliadas do futuro. O excesso de tudo isso, no entanto, criou a paixão. A paixão gerou o vício. O vício patrocinou o desequilíbrio.
                Comparemos o egoísmo como sendo o vírus e a arrogância a doença, seus efeitos nocivos e destruidores.
                No sentido espiritual podemos inferir vários conceitos para o sentimento de arrogar. Vejamos alguns: exacerbada estima a si mesmo. Supervalorização de si, autoconceito super dimensionado. Desejo compulsivo de se impor aos demais.
                O egoísmo é o sentimento básico. Arrogância é a atitude íntima derivada desse alicerce de sensações nascidas no coração ocupado, exclusivamente, com seu ego. Uma compulsiva necessidade de ser o primeiro, o melhor, manifestada através de um cortejo de pensamentos, emoções, sensações e condutas que determinam o raio espiritual no qual a criatura transita.
                Rigidez, competição, imprudência, prepotência, são as ações mais perceptíveis em decorrência do ato de arrogar que estruturam expressiva maioria dos estados psicológicos e emocionais do ser. A partir desse estado orgulhoso de ser, podemos perceber um quadro mental de rígida auto-suficiência, do qual nascem as ilusões e os equívocos da caminhada humana, arrojando-nos aos despenhadeiros da insanidade aceitável e da rivalidade envernizada.
                O traço predominante na personalidade arrogante é a não conformidade. Usada com equilíbrio, é fonte de crescimento e progresso. Todavia, sob ação dos reflexos da posse e do interesse pessoal, que marcaram, acentuadamente, nossas reencarnações, esse traço atingiu o patamar de rebeldia e obstinação enfermiça.
                A rebeldia tornou-se um condicionamento psicológico que dilata as ações da arrogância. Uma lente de aumento que decuplica e acelera as mutações da auto-suficiência.
                Estudemos as atitudes pilares da arrogância sob as lentes da rebeldia.
                A rigidez é a raiz das condutas autoritárias e da teimosia que, freqüentemente, deságuam nos comportamentos de intolerância. Sob ação da rebeldia, patrocina o desrespeito ao livre-arbítrio alheio e alimenta constantemente o melindre por a vida não ser como ele gostaria que fosse.
                A competição não existe sem a comparação e o impulso de disputa. Quando tomado pela paixão, a força motriz de semelhante ação é o sentimento de inveja. Na mira da rebeldia, causa o menosprezo e a indiferença que tenta empanar o brilho de outrem. A competição é o alimento do sentimento de superioridade.
                A imprudência é marcada pela ousadia transgressora que não teme e nem respeita os limites. Quase sempre, essa inquietude da alma alcança o perfeccionismo e a ansiedade que, freqüentemente, deságuam na necessidade de controle e domínio. Consubstanciam modos rebeldes de ser. Desejo de hegemonia. Sentimento de poder.
                A prepotência é um efeito natural da perspicácia que pode insuflar a megalomania, a presunção. Juntos formam o piso da vaidade. A rebeldia, nesse passo, conduz a uma desmedida necessidade de fixar-se em certezas que adornam posturas de infalibilidade.
                Conforme o temperamento e a história espiritual particular, a arrogância manifesta-se com maior ou menor ênfase em uma das quatro ações descritas, criando efeitos variados no comportamento. Apesar disso, a cadeia de reflexos íntimos é muito similar.
                Egoísmo que na sua mutação transforma-se em arrogância; essa, por sua vez, deriva um cortejo de outros sentimentos sob ação do orgulho e da rebeldia.
                A arrogância retira-nos o senso de realidade. Acreditamos mais naquilo que pensamos sobre o mundo e as pessoas do que naquilo que são realmente. Por essa razão, esse processo da vida mental consolida-se como piso de inumeráveis psicopatologias da classificação humana. A alteração da percepção do pensamento é o fator gerador dos mais severos transtornos psiquiátricos. São as manifestações enfermiças do eu na direção do narcisismo. Na rigidez, eu controlo. Na competição, eu sou maior. Na imprudência, eu quero. Na prepotência, eu posso. A arrogância pensa a vida e, ao pensá-la, afasta-nos dos nossos sentimentos.
                Essa desconexão com a realidade estabelece a presença contínua das fantasias no funcionamento mental, isto é, a interpretação ou imagem desvirtuada que a pessoa alimenta acerca de fatos, pessoas e coisas. Nesse passo existem dois tipos psicológicos mais comuns. A arrogância voltada para o passado, quando há uma fixação em mágoas decorrentes da inaceitação de ocorrências que, na sua excessiva auto-valorização, o arrogante acredita não merecê-la. O outro tipo é a arrogância dirigida ao futuro, quando a criatura vive de ideais, no mundo das idéias, acreditando-se mais capaz e valorosa que realmente o é. Passível de realizar grandes e importantes missões. Tais deslocamentos da mente são formas de evadir de algo difícil de aceitar no presente. De alguma maneira, constituem mecanismos protetores, todavia, quando se prolongam demasiadamente, podem gerar enfermidades psíquicas. A depressão é resultado da arrogância voltada ao passado. E a psicose em relação ao futuro.
                Interessante observar que uma das propriedades psicológicas doentias mais presentes na estrutura rebelde da arrogância é a incapacidade para percebê-la. O efeito mais habitual de sua ação na mente humana. Basta destacar que dificilmente aceitamos ser adjetivados de arrogantes. Entretanto, um estudo minucioso nos levará a concluir que, raríssimas vezes na Terra, encontraremos condutas livres dessa velha patologia moral.
                Relacionemos outros efeitos dessa doença:
1-      Perda do autodomínio.
2-      Apego a convicções pessoais.
3-      Gosto por julgar e rotular a conduta alheia.
4-      Necessidade de exercício do poder.
5-      Rejeição a críticas ou questionamentos.
6-      Negação de sentimentos.
7-      Ter resposta para tudo.
8-      Desprezo aos esforços alheios.
9-      Imponência nas expressões corporais.
10-   Personalismo.
11-   Auto-suficiência nas decisões.
12-   Bloqueio na habilidade da empatia.
13-   Incapacita para a alteridade.
14-   Turva o afeto.
15-   Acreditar que pode mais do que realmente é capaz.
16-   Buscar mais de que necessita.
17-   Querer ir além de seus limites.
18-   Exigir mais do que consegue.
19-   Sentir que somos especiais pelo bem que fazemos.
20-   Supor que temos a capacidade de dizer o que é certo e errado para os outros.
21-   Sentir-se com direitos e qualidades em função do tempo de doutrina e da folha de serviços.
22-   Acreditar que temos a melhor percepção sobre as responsabilidades que nos são entregues em nome do Cristo.
23-   Julgar-se apto a conhecer o que se passa no íntimo de nosso próximo.
24-   Desprezar o valor alheio.

A ausência de consciência sobre esse sentimento e suas manifestações de rebeldia tem sido responsável por inúmeros acidentes da vida interpessoal. Mesmo entre os seguidores das orientações do Evangelho, solapam as mais caras afeições, levando muita vez a tomar os amigos como autênticos adversários.
Ter autoconsciência é uma das habilidades da inteligência emocional. Saber dar nome aos nossos sentimentos é fundamental no processo de crescimento e reforma interior. A arrogância que costumamos rejeitar como característica de nossa personalidade é responsável por uma dinâmica metamorfose dos sentimentos.
A ignorância de seus efeitos em nossa vida é explorada pelos gênios astutos da perversidade no planeta.
Do livro: ESCUTANDO SENTIMENTOS – a atitude de amar-nos como merecemos
Wanderley de Oliveira/Ermance Dufaux